A paz exige muitas renúncias e muitas conversas com nacionalistas

Data da publicação original:
.
Veiculado originalmente por:
.
especial para
Lab Jornalismo 2050®.
written to
Lab Journalism 2050®.
Imagem:
David Cohen
David Cohen
/
.
Image:
David Cohen
David Cohen
/
.

Tivemos, pelo menos eu tive muita, esperança de que um milagre nos fosse concedido (haja fé, meu bem!), a saber: viver sem guerra, sem derramamento de sangue. Da parte da história do mundo científico, há um registro especial (para mim) dessa esperança, quando Einstein e Freud trocaram cartas sob o título “Por que a guerra?”. Em linhas gerais e específicas, concluíram, a partir de uma provocação da Liga das Nações (que viria a se tornar a Organização das Nações Unidas – “comunistas malditos!”), que a origem da guerra é o patriotismo.

Quando falo desse assunto, de uma escolha por ser pacifista, encontro resistência da parte de pessoas de diferentes linhas de pensamento. Quer seja um homem simples, quer um esclarecido, é trabalhoso sustentar o argumento de que a paz depende de uma porção numerosa de renúncias pequenas e grandes, e de que hastear uma bandeira de país e chamá-lo de maior que os outros é um risco.

Mais que rapidamente surge o dado de realidade Ucrânia-Rússia, pelo qual se poderia perguntar “mas e se um país invade o seu território?”, e caímos no que chamo “mirar no bispo para acertar o padre”, que é continuar a afirmar: o patriotismo é a origem da guerra. Ou não foram sob alicerces nacionalistas que cometemos erros vergonhosos contra a vida? Alemanha acima de tudo! Judeus abaixo da terra! Quantos milhões de mortos na Europa durante a Segunda Guerra? Em uma conta simples, foram cerca de três bilhões de quilos de carne humana que apodreceram.

Na Ucrânia de hoje, vocês também viram pela televisão corpos sendo jogados em valas comuns? Cheguei a pensar, nessa ocasião, “deve ser imagem de arquivo da Segunda Guerra”.

No Brasil, um “nacionalismo” mais sofisticado, e com a anuência da medicina psiquiátrica, assassinou sessenta mil pessoas em Barbacena (MG). Três milhões de quilos de carne humana que apodreceram. Dos mortos no hospital Colônia, cerca de 70% sequer tinham diagnóstico de doença mental. Morreram porque eram pobres, porque eram rebeldes, porque engravidaram de alguém que não podia decepcionar a própria família conservadora. Os corpos eram vendidos para faculdades de medicina, depois de falecerem sobre feno sujo de urina e fezes humanas.

Mas apesar de todas essas coisas, teremos de conversar todos os dias (inclusive com os nacionalistas).

Quanto, no início deste texto, eu me referi a uma esperança, eu tinha em mente o que foi um tipo de fantasia coletiva, provavelmente há um nome apropriado para o ocorrido, mas eu não sei qual, de que o primeiro turno das eleições nos livraria do ultraje que é o palco público brasileiro de 2022.

Aí com seu pessoal, conte-me, tem encontrado deprimidos, ansiosos, pessoas perdendo cabelos? É consequência da pandemia? É consequência da polarização política? O fato é que “as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo / A saudade de seus homens”. Fosse lá o que fosse, ou quem tivesse sido mais ou menos responsável, a gente queria que tivesse terminado. Essa era a nossa esperança sincera.

Ocorre que não foi assim. Nós do jornalismo havemos de conversar diariamente sobre as mudanças substanciais no palco público. Lição básica de filosofia: se uma mudança é substancial, azedou mesmo a marmita para quem esperava reviver a grandiosidade plástica dos noticiários de antigamente. Agora, meu bem, “pega lá” o que vai ser divertido: nós obrigatoriamente vamos superar este momento difícil.

Referências

No items found.

Outras publicações

Back to Portuguese

Conteúdo licenciado sob
CC BY-NC-SA 4.0
Lab Educação 2050 Ltda
47.078.846/0001-08