Conversar com todos é formação do jornalista

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Diante daquele presidente eleito, seja ele quem for, daqui a duas semanas, teremos superado uma das “desculpas” para procrastinar talvez a mais importante prática jornalística, a de conversar com absolutamente todos que nos apareçam. Do jeito que o país está dividido – o que não se aplica ao Paraná, haja vista a reeleição do governador, e a votação do antipetismo para a Presidência –, caímos fácil na falácia de que é melhor deixar aquele assunto controverso para lá, para depois disso, para além daquilo.

Nós, jornalistas, talvez nos tenhamos dado ao luxo de escolhas elitistas. Quando a palavra “elite” emerge nos artigos científicos de comunicação política, um pequeno demônio sussurra em nossos ouvidos de gatekeepers: “você venceu na vida, fez por merecer, você é elite”. Não necessariamente o demônio está errado, frequentemente nos diz coisas mais razoáveis que o psiquiatra. Fazer-se ou ser-se elite, porém, conferiria a nós um papel pouco flexível, mais de Rainha Elizabeth que de Winston Churchill. De qualquer modo, quem vai falar com os que não entram no palácio?

Durante as eleições, coberturas de desastres, de carnavais, e toda sorte de assuntos falsamente urgentes, somos tentados ou coagidos a sacrificar o trabalho antropológico, de investigação, de perguntar “como isso que você está me contando acontece?”.

As perguntas do lead, o famoso “o quê, quem, como, quando, onde e por quê”, podem ser respondidas por inteligências artificiais bem treinadas. Algumas atividades da redação são tão mecanizadas que sites avançados substituíram repórteres por robôs – o que acho muito bom. Bem tensionada, a teoria Newsmaking pode dar conta dessa mudança. Mas isso não atende a necessidade de reconhecimento e participação das pessoas que nos leem ou assistem. O palco público que nos esforçamos para manter em pé não tem pernas que não sejam as nossas, ouvidos e inteligências que não sejam as nossas.

A primeira tarefa a ser concluída, depois das eleições, como queiram, é visitar todos, todos, aqueles tios do zap do grupo da família, insuportáveis no digital e amáveis feito a Santa Maria quando presentes em carne. É preciso atender aos telefonemas deles, deixá-los nos explicar por que acreditam que o Supremo Tribunal Federal trabalha para destruir a vida, por que acreditam que aquele terreninho mixuruca a dezessete quadras da praia vai ser “invadido” pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), mas, principalmente, por que não acreditam mais no que você e eu escrevemos, gravamos ou apresentamos. E quando nos disserem que é porque “a mídia está toda comprada”, perguntaremos: “não fique chateado, tio, mas como isso acontece?”.

Deixem-me escrever um pouco em tom solene de Bíblia.

Filhinhos, não pratiquem culto à falta de tempo. Isso é próprio de profissões menos importantes e menos prestigiadas que a de vocês. Jamais respondam “hoje, não posso ir ao Basset Lanches com os amigos dos meus amigos”, e jamais evitem ouvir pela quinquagésima vez a mesma história. Se uma história resiste a cinquenta repetições é poque deve ser boa. É abominável, de qualquer modo, que o sucesso profissional termine em indisponibilidade para se ir à universidade, à exposições de arte, ou para sentar em uma roda diferente onde não se é o dono da verdade.

Fim do desafio bíblico.

Daí complica, sentar em uma roda diferente onde não se é o dono da verdade, porque, em alguma medida, somos obrigados a ampliar nossos quadros de referência. E isso nos faria perder o papel de “juiz da notícia”. É preciso reconhecer o pequeno Sergio Moro que mora em cada um de nós, para impedi-lo de errar a mão, impedi-lo de se alimentar e realizar a Operação Lava Jato 2. Temos de nos proibir terminantemente de comer o Estado com farinha. No fim, o tio do zap e nós jornalistas temos pelo menos isto em comum: não gostamos de nos sentir enganados ou subestimados.

Quando me refiro a jornalistas, escrevo sobre o grupo que considero minha comunidade profissional. Escrevo, pelo testemunho de sobriedade, a partir de mim. Porque eu somente poderia criticar no “outro” (para ser um pouco habermasiano) o que tivesse consciência de ser criticável, ou, ainda, minha crítica poderia partir de meus defeitos pessoais. Ou várias outras variações. Mas com ou sem autocrítica, sem ou com o melhor jeito de comunicar aos pares que essas críticas são um remédio amargo para nosso futuro profissional, estamos no mesmo Titanic do noticiário.

No lá e no então do passado, dizia-se a cada geração de repórteres: “lugar de repórter é na rua”. A ideia era de que a notícia estava onde havia vida, onde tinha ônibus e postes atrapalhando as vidas dos contribuintes, nas muvucas das manifestações políticas ou sindicais. A gente sai para escrever sobre uma colônia de férias, e volta sujo de barro fazendo vivo de enchente. Que demais essa profissão!

No aqui e no agora, reforço: lugar de repórter é em todas as ruas, em qualquer espaço que se possa entrar. Por que o cachorro entrou na igreja? Porque a porta estava aberta. Onde houver gente, onde houver conversas sobre dificuldade para dormir, sobre níveis de colesterol, onde se estiver falando sobre pintura em aquarela, sobre a influência das medidas das ondas do mar na formação das conchas, bem ali onde estiverem os “extremos” (amáveis como Santa Maria), na discussão acadêmica, na internet, claro, nas festas de família, há de haver um jornalista que se interessa pela vida humana. Se um apresentador consegue resolver um imbróglio familiar, aguenta qualquer coisa no ar.

Este texto é um convite a um dos fundamentos da formação de jornalistas, às relações interpessoais. É ouvindo sem preconceitos que a gente rearranja o caleidoscópio do mundo, que sentimos aquele ar fresco e perfumado do que é novo, que nos livramos das bolhas com cheiro de jaula. É entre pares que testamos as ideias em nossas cabeças, encontramos as primeiras resistências ou oposições claras, amadurecemos o que não está maduro o suficiente.

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