História que corre devagar

Data da publicação original:
2/6/2007
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Julio Cesar Guimarães
Julio Cesar Guimarães
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Agência O Globo
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Finalmente, já se sabe que eles não comem criancinhas nem são devotos de Satanás. Em tese, é o proletariado organizado. Filhos bastardos do pensador Karl Marx, os comunistas acreditam no estabelecimento da igualdade social – por isso são contra o capital privado. Perseguidos durante os anos de delírios autoritários Terra afora, hoje estão bem escondidos. Aliás, nem eles mesmos sabem onde estão.

Estudos antropológicos certificam que a política do “para todos” existe desde as civilizações mais remotas. Por isso, é impossível determinar a data do nascimento da ideologia socialista. É como tentar datar o nascimento da religião, por exemplo.

Mas, vamos aos fatos verde-amarelos.

1989. Esporte Clube Bahia ainda é o campeão brasileiro, Angela Visser é Miss Universo, morre Paulo Leminski, cai o Muro de Berlim e Collor é presidente do Brasil.

Nas primeiras eleições diretas do Brasil em 29 anos, os 22 candidatos à presidência e todos os outros brasileiros da República assistiram ao início da novela do Partido dos Trabalhadores (PT) para tomar o poder. Fundador e representante do PT, o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva fica em segundo lugar no primeiro turno e perde o segundo para o jornalista Fernando Affonso Collor de Mello. O sonho esquerdista lula-lá, uma estrela brilha, fica resumido a sonho por mais 13 anos.

O engomadinho fluminense/alagoano sobe a rampa do Planalto e dois anos e meio depois é rechaçado de lá por impeachment, sob acusações de corrupção. Nesse país de gente bronzeada não cabia mais grito para compensar a imbecilidade das castas políticas. E da irrefragável sucessão estúpida vem o baiano do topete. Premiado ‘melhor objeto inanimado’ nesta reportagem, chega Itamar Franco com a URV do homem da Fazenda.

Parece que esta história está indo muito devagar.

O Itamar faz as malas e se despede do Alvorada para dar lugar ao sociólogo estudado no estrangeiro Fernando Henrique Cardoso. Por quatro anos foi o FHC nosso de cada dia. (Nessas eleições, o Lula ficou em segundo lugar, mais uma vez.)

Com um presidente do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), vulgo tucano, brasileiros mais velhos assistiram à derrocada nacional promovida pelo neoliberalismo – que defende com unhas e dentes o capital privado, aquele repudiado pelos comunistas – e os brasileirinhos mais jovens aprendiam como as coisas não deveriam ser feitas em seu país. Se FHC é a direita, logo “o que resta é a esquerda”: é o pensamento, capenga, que assalta a politização dos filhos caras-pintadas.

Cada novo simpatizante dessa esquerda subjetiva teve sua ideologia promulgada por uma barbárie pátria. Tiros neoliberais que saíram pela culatra. As privatizações encabeçam a lista. Quando em 1997 a companhia Vale do Rio Doce foi vendida a preço de bananas para o Consórcio Brasil (e com subsídio do Banco Nacional de Desenvolvimento), alguns milhares de jovens apátridas atentaram para os negócios escusos do governo. As estatais de eletricidade, telefonia, dinheiro… foram graciosamente entregues ao capital privado, quando não externo. É claro que qualquer esquerdista que se prezasse não podia concordar com isso.

Letra A. No instante máximo de revolta contra as privatizações, os recém-nascidos nacionalistas vão às ruas e exigem a reapropriação dos bens públicos – não.

Letra B. O Movimento Estudantil fecha universidades, professores fazem greves. Secundaristas bloqueiam escolas e exigem a volta do estudo técnico – não.

Letra C. Cada brasileiro cuida de seus afazeres cotidianos enquanto FHC toma um avião para viajar em mais uma missão diplomática secreta. Quando volta, advoga a reeleição no Brasil, faz campanha chantagista azul e amarela, ganha o pleito e estende seu mandato por mais quatro anos. (Nessas eleições, o Lula ficou em segundo lugar, mais uma vez.)

A onda de privatizações alcança o Paraná. Também serviços fundamentais dos municípios. Os itens do estado ficam à mercê dos grandes conglomerados econômicos.

Aqui, o ex-PDT, então PFL-comparsa-de-tucano Jaime Lerner promove o sucateamento mecânico e midiático da Copel, para convencer de uma suposta crise pela qual a estatal passava. A ladainha não se sustentou.

A tolerância dessa tímida e anômala nova esquerda em relação aos desequilíbrios nacionais acaba com as eleições presidenciais de 2002. Serra negava o apoio de FHC à sua candidatura e a estrelinha brilhando, mais uma vez. A Regina Duarte dizendo “eu tenho medo” do Lula na televisão serviu para afundar mais as coisas. O apelo veio berrante. Veio ridículo. Neoliberal.

Comoção nacional. Os jornalistas mais herméticos reportam a vitória com uma empolgação excedida. O tucano caiu e se ergueu a estrela. Finalmente, Lula-lá subindo a rampa.

Os quatro anos que se seguem são desenhados pela expectativa da população a respeito das ações de Lula.

Uma comedida estagnação econômica é o preço de uma rarefeita redistribuição de renda no país através de ações afirmativas em programas sociais e cotas em universidades. Mas logo o politicamente legitimado PT recebe acusações de corrupção. Valerioduto, mensalão, e com os companheiros parlamentares também sanguessuga. Mas não ouve escândalo suficiente para impedir a reeleição do presidente Lula. A esquerda (de Lula) não era ruim.

Então, encontrou-se nas campanhas para presidência de 2006 um momento de reflexão nacional. Por que o Lula estava na frente nas campanhas? O adversário juvenil de Lula, Geraldo Alkmin, dizia “vou manter o Bolsa-Família”. As classes C, D e E, que aumentaram seu poder de compra nos quatro anos que haviam se passado pensavam em qual seria o benefício da mudança. E não havia. Razão pela qual ainda estavam com Lula. O país inteiro sabia da corrupção que havia existido, mas ajustou o foco nisto: “desde sempre ouve sujeira na política, compra de parlamentares”… e isso não era o mais importante naquele momento. O mais importante era que a dona de casa estava com um carnê para pagar a geladeira nova e pensava “a vida está melhorando”. A esquerda (de Lula) não era ruim.

Aquela nova, jovem e empírica esquerda recebe as classes economicamente subjugadas pelo neoliberalismo. E no segundo mandato o presidente Lula diz que esquerda, não. Equilíbrio. Mal-interpretado pelos profetas do caos, o presidente ainda trata de explicar com palavras. Nem era necessário.

A América Latina ruma avessa. Venezuela e Colômbia são os exemplos mais radicais da ideologia esquerdista que nos precedeu. Enquanto estabelecem regimes autoritários são duramente criticados pelo mundo. Não que a crítica do mundo seja uma máxima, mas até mesmo o cristianismo advogado por Hugo Chávez ensina algo como “fazer-se de tolo, para ganhar os tolos”. Já o Brasil, com sua esquerda peculiar, é listado com Rússia, Índia e China para se desenvolver amplamente nos próximos anos. Inflação controlada (nada de 80% como a Regina Duarte disse), risco-país caindo gradativamente, moeda forte, aumento do poder de compra das classes que ganham menos de cinco salários. Tem mais coisa, mas agora com certeza essa história está indo muito devagar.

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