Sétimo dia / parte um

Veiculado originalmente por:
Blog pessoal de Sgarbe
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Blog pessoal de Sgarbe
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Lab Jornalismo 2050®.
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Lab Journalism 2050®.
Data da publicação original:
13/10/2007
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9/1/2023
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Jen Theodore
Jen Theodore
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Os demônios do sábado viriam irrefragavelmente para fazer lembrar a calamidade dos anos passados, quando tempestades de areia, dragões e bestas passaram pela cidade deixando um rastro inconfundível de desastre. Desde o Grande Tormento, em meados de noventa, todo sétimo dia da semana virou um calo na bunda da alma, de modo que, aos sábados, Xavier crescia eternamente para dentro de si e se deixava envergonhar por sua fraqueza extrema, para o deleite de seus adversários: demônios fajutos, aos quais destinou respeito mais por misericórdia de si mesmo do que por medo.

O cenário da tragédia única, a casa, era um cubículo popular feito do acúmulo de tijolos e telhas de barro, com as paredes recobertas de concreto, cal virgem e demãos sobrepostas de tinta brilhante. Para o norte, uma das duas águas do telhado corria até o beiral em um desenho sustentado por três janelas de ferro oxidado e vidros ambíguos, para barrar o vento e com seus desenhos matelados esconder as entranhas da casinha.

Para o lado que enxergava primeiro a luz do dia, duas portas de pinus vestidas de cinza abriam a cozinha e a sala de estar, que mais era uma continuação. O fogão, o armário suspenso, uma mesa judiada pelos anos, o pavimento pigmentado vermelho sangue. Mais uma porta da cozinha para a sala e lá estavam, evidentemente, móveis betumados, envernizados, lixados, novamente betumados, envernizados, lixados, pagos em prestações.

A estante segurava o telefone, porta-retratos baratos e bibelôs presenteados por amizades brejeiras. Em seus armários estavam caixas e dentro destas mais caixas e ainda dentro destas mais caixas e pastas com papéis, contas a pagar, comprovantes, boletins, recortes de jornal, diários, cartas de amor e lixo, e pó, e memórias gravadas, pois importantes apenas para seus proprietários. Ao seu lado, a mesa de seis lugares para as refeições festivas, para a leitura, para o escritório improvisado de uma casa administrada por uma mãe sistemática, detalhista, contabilizada a cada palavra.

Então o corredor de onde fluía o que se chamava de três quartos e um banheiro. O recôndito de um casal unido apesar dos amores controvertidos, a despeito dos desencantos da vida regular, o quarto de Xavier e seu irmão menor, as camas paralelas, o guarda-roupas, o lugar da televisão. O quarto da televisão. A família: pai, mãe, dois filhos e a televisão.

Para o sul, um puxado de fibra de amianto criava a lavanderia, ou uma porta dos fundos coberta, com uma máquina de lavar roupas, e também onde estava o terceiro umbral de acesso à cozinha. Tantas portas a perfazer o caminho suntuoso das inversões domésticas.

A edícula nascia do quintal de grama crescida e mato rasteiro, pois em meados de noventa ainda havia muitos quintais e cento e vinte e três pomares na cidade. Careciam daquele amontoado esdrúxulo de vigas podres e telhado de fibra castigado pelas chuvas de granizo apenas para proteger o carro das amoras que caiam da árvore do terreno vizinho e também das merdas de pássaro. Depois de alguns meses de treino, as aves ficaram tão meticulosas que raramente erravam o carro, mirando o cu para que a merda atravessasse os rombos feitos pelo gelo na cobertura e acertassem o veículo.

O muro de tijolos vistos na última limitação do terreno era a escada pela qual Xavier e seu irmão subiam para apanhar amoras e brincar em cima da podridão, arriscando suas vidas no mais instável solo daquele habitáculo melindroso.

No outro extremo, para o qual a fachada se exibia para a rua, passava a mureta e em um trecho dela o portãozinho de madeira velha. Tudo baixo, para qualquer criança atravessar sem o auxilio dos adultos. Esses elementos todos, cozinha, televisão, merda, fundos, estavam plantados atrás dos pés de ipê amarelo e bracatinga, duas árvores pobres, inabaláveis, esguias, perdidas na forma imóvel e vegetal. Árvores impressas no solo tal qual um selo, garantindo o trânsito das correspondências e eternamente se despreguiçando com seus galhos longilíneos, repletos de pequeninas folhas. O retângulo onde cabiam as explicações anteriores juntamente a outros retângulos formava um bairro de novos trabalhadores potencialmente controlados pela significação adequada em cada fase e que nesta última tinham comprado a casa própria.

Quando tudo estava assim, exatamente assim em cada detalhe expandido pelo repertório e índole de significação de meus leitores, era sábado, meados de noventa e o desastre se anunciou quando havia passado o dia. Pelo deslocamento absurdo dos signos e trópicos, Xavier se achou sozinho quando fendas baforentas de enxofre, iluminadas pelo plasma incandescente, vomitavam insetos desconhecidos, mutações de lobos selvagens e répteis peçonhentos. O calor derretia cada paz que tivesse havido, a estiagem secava cada rio, cada veia de sangue, até petrificar as vísceras.

(Continua)

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