Lab Educação 2050

Catavento e girassol: preservar a esperança diante da crueldade com as crianças

Com Guinga, Aldir Blanc e um Dom Quixote interno, a recusa a perder a esperança diante da crueldade.

Na música de Guinga, que encontra a poesia de Aldir Blanc, o catavento conversa com o girassol. E se dá quase um tango, com chegadas e partidas, com contrastes e belezas, tudo se acabando no sumidouro (onde algo desaparece) do espelho.

Meus cataventos flutuam em um céu cinza, com uma promessa de azul, sem chão, sem certezas, com uma quase agonia.

Meus cataventos são espelhos no sumidouro agônico de um Dom Quixote que teima em acreditar, teima em buscar e segue tentando encontrar o amor.

Por vezes, nestes dias, estive muito perto de perder a esperança. A crueldade, em qualquer lugar, me apavora.

A crueldade amplificada pela dor de crianças distende a minha alma até o ponto de ruptura. O brado das mães, na sua dor inimaginável, ressoa dentro dos meus múltiplos brados, muitos deles calados sob o domínio de diferentes mandos.

Meus cataventos perdem o chão, escapam em voo desesperado, em busca de respostas. O que posso fazer? O que podemos fazer? Sei que nós, como espécie, já nos perdemos muitas vezes desde os neandertais. Já nos matamos e destruímos em nome de um sem-número de motivos ilógicos. Nossa espécie está exaurida pelas destruições que pousam nas manchetes, mas também está morrendo aos poucos em pequenos e quase banais eventos.

Fico perplexa quando, em momentos tão densos e severos, homens e mulheres públicas se perdem em deselegantes e grotescas mastigadas em produtos do cacau. Às vezes, quase sempre, não é possível detectar nada de empatia ou de consciência coletiva.

Meus cataventos voam em busca de um porto, não seguro, mas possível, onde possam pousar. Falo várias vezes para mim mesma: não desista, não desista, não desista. Bora semear gotas límpidas neste oceano complexo e difuso, no qual seres humanos são despessoalizados e maltratados, discriminados e eliminados em nome de vários deuses regidos pela cobiça indiferente.

Há crianças que seguem sem esperança, quando seguem. Há crianças que seguem sem orientação, quando seguem. Há crianças que seguem violentadas, quando seguem.

Há adultos cujas crianças internas foram caladas e que seguem, autômatos, sem ver ou ouvir, sem sentir ou perceber; para sobreviver, se entorpecem.

Há adultos cujas crianças internas aprisionadas perderam completamente a conexão com o maravilhamento. Não mais se emocionam. Coisificados, coisificam as outras pessoas. Sem perceber a própria dor, ficam cegos às dores ou necessidades à volta. Crianças feridas em corpos adultos zanzam para lá e para cá, neste nosso desgastado planeta, fazendo estragos, brigando brigas de crianças em um cenário que precisa tanto de adultos pensantes.

Não desistir, não desistir, não desistir.

Meu Dom Quixote interno, lúcido, muitas vezes insone, quer falar alto nas praças para acordar os adultos. Para fazê-los atender à criança interna, para que vejam as crianças, para que vejam os outros adultos. Para que vejam.

Meu Dom Quixote interno, muito triste, chora. Mas se recusa a perder a esperança.

Meu catavento tem dentro o girassol de Aldir. Quem chegou até aqui: acorde sua criança interna, dê-lhe dengo e colo. Abrace uma criança em corpo de adulto, que talvez se assuste, mas quem sabe goste! Olhe nos olhos das crianças e se perca nesse espelho das luzes possíveis. Seja quem preserva, e não quem apaga.

Não desistir, não desistir, não desistir.

Podemos, com pequenos gigantes gestos, nutrir a quase morta esperança. Podemos, com um olhar atento, não nos perder nos sumidouros absurdos e fantasiosos do poder e da glória. Podemos nos sentar à beira de cataventos, assentados depois dos sustos, bebendo possibilidade e cerzindo alma.

Comentários

A conversa acontece no fórum do Lab Digital 2050. Leia os comentários abaixo e clique em “Responder” para participar.

Caderno de exercícios

Pedir ajuda
Info gravada!
Thank you! Your submission has been received!
Oops! Something went wrong while submitting the form.
☁️ Salvamento automático