Lab Educação 2050

A solidão e as palavras: do refúgio nos livros ao “sentimento oceânico” de Freud

Da menina que se refugiava nos livros ao sentimento oceânico: a leitura como defesa e como encontro.

Desde criança, por razões que entendo hoje, meu refúgio era o mundo da fantasia. Quando nesse recanto chegou o ato de ler, ele ficou ainda mais potente e reconfortante. Um pouco antes da adolescência, um par de óculos veio compor o cenário e, com eles, a função de cuidar para que não se quebrassem.

Assim, enquanto meus colegas jogavam durante o recreio, eu podia ser encontrada na biblioteca do colégio, farta em literatura religiosa, em tempos em que pensei em ser santa. Não funcionou!

Paradoxo dos paradoxos: minha família de origem é populosa e, mesmo naquela multidão, eu estava sempre mais dentro de mim, sozinha, do que fora. Tinha uma sensação constante de solidão, mesmo em meio a uma overdose de barulho, característica dos encontros. Em todos os lugares, os livros me atraíam como ímãs. Na casa da minha vovó Nenê, havia um tesouro. Minhas tias liam muito, inclusive livrinhos pequenos e românticos que, às escondidas, pois eram proibidíssimos, eu aproveitava as férias para devorar, abastecendo-me de roteiros interessantes.

Assim, estive cercada de livros a vida inteira, com seus personagens e histórias. Continuo espiando o mundo por meio de palavras, cercada de milhares de livros. Um dia, um pequeno cliente, menino lindo e de uma inteligência vibrante, com olhar curioso, olhou a imagem da biblioteca pela tela, voltou os olhos para mim e perguntou, meio assustado: “Você leu todos estes livros?”. Concordei com um movimento de cabeça, encantada com o olhar daquele ser humano, e ele me perguntou: “Se leu todos estes livros, quando você viveu?”.

Naquele momento, em tempos marcados pelas dores da pandemia, sorri meio sem graça. Não tive resposta a dar.

De lá para cá, fui construindo essa resposta. Como tantas pessoas, ler foi uma das minhas estratégias de defesa. Fugir da desestrutura do presente e fazer família em enredos bem descritos manteve minha sanidade por muitos anos e, de certa forma, ainda mantém.

A curiosidade, bem maior do que a dor, continua movimentando meu desejo e meu interesse por saber o que está acontecendo dentro das duas capas. Ou o que a pessoa que escreveu viu, pensou, viveu antes de espremer a experiência em palavras. Ainda me custa despedir-me de um bom livro, e, nas últimas páginas, vou reduzindo a velocidade de leitura para esticar a experiência.

É claro que pude aprender muito e também deixar de aprender muito. A experiência com as pessoas, do chegar ao despedir-se, até onde minha memória alcança, foi complexa. Daquilo que me fazia fugir para os livros ficou, como companhia até hoje, um olhar assustado, habilmente escondido, e um desejo de voltar rápido para o meu canto. Canto protegido, mediado, seguro. Hoje já consigo prover confiança suficiente a essa menina do passado para que ela fique mais presente com as pessoas. Ela já atende ao meu convite para experimentar vínculos e confiar. Foge menos. Sofre menos.

Reconheço esse olhar assustado onde quer que eu esteja.

De pessoas que não experimentaram vínculos seguros e confiáveis e que desenvolveram um sem-número de estratégias para se manterem vivas na confusão dos relacionamentos. De pessoas que não receberam amor incondicional a ponto de não duvidar de ser ou não parte, a ponto de não saber amar ou receber amor. Meu papel hoje é acolher e apoiar a jornada dessas pessoas.

As palavras encontradas em livros me ajudaram a entender os fenômenos; tê-los vivido me deu uma paleta de compreensão e um desejo muito grande de dizer a quem puder ouvir que é tempo. Sempre é tempo. Para viver fora dos refúgios.

Nesta semana, pela primeira vez, encontrei em duas palavras um ponto de reflexão sobre estratégia de sobrevivência: “sentimento oceânico”. Como encantada por palavras que sou, mesmo sem saber o que significavam, saboreei as duas, e por dias elas ficaram zanzando no meu condomínio mental.

Impulsionada pela curiosidade, fui atrás. Em carta a Sigmund Freud, em 1927 (quase cem anos atrás), Romain Rolland usou a expressão para descrever a sensação de eternidade e de ser um com o mundo externo. Imagino que os dois pensaram muito; consigo vê-los em uma mesa de café, concordando e discordando, entre baforadas de charuto aqui e ali. Meu desejo é viajar no tempo para fazer perguntas.

Diante do que vivo e vejo, nas tentativas humanas de sobreviver na multidão, tendo a me alinhar ao que Sigmund afinal concluiu: o sentimento oceânico, uma unidade com o mundo, descreve a sensação que uma criança tem antes de aprender que há outras pessoas no mundo.

Ah! Isso, então! Uma busca de recuperar aquele instante em que ainda não havia a ameaça de não pertencimento, pois não havia a dúvida.

Desde o encontro com o “sentimento oceânico”, penso em possibilidades de recuperação consciente desse sentimento como objetivo, e não como fuga. Parece-me que preciso estar bem presente no presente, com minhas agonias contingenciadas e minha criança interna sossegada...

Foi uma lindeza de descoberta, entre os tantos momentos em que esse sentimento oceânico aconteceu. Fiz curadoria desses momentos. Uma delícia. Filhos, amores, amigos, música, imagens, céus, aromas, sabores, sensações... Duas palavras que podem abrir caminho para fugir ou para buscar.

Para quem quiser ler a respeito: Freud termina O futuro de uma ilusão com uma discussão do conceito e a retoma no início de O mal-estar na civilização, respondendo ao pedido de Rolland. Lá, ele credita o conceito a um amigo anônimo, fazendo menção a Romain Rolland em nota de rodapé, conforme aparece na versão em espanhol publicada pela editora Amorrortu em 1994.

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