Lab Educação 2050

Olhar de abelha, olhar de mosca: como a visão que escolhemos molda a convivência

A metáfora de abelhas e moscas mostra como o foco em possibilidades ou em defeitos molda a vida.

Uma abelha observa maravilhada as possibilidades que um roseiral lhe apresenta: flores e o néctar que, colhido, entra no circuito colaborativo da produção de mel. Viver entre seres humanos e, principalmente, trabalhar com eles exige esse olhar de abelha. Desde o início, nos primeiros olhares, nos primeiros diálogos, surgem possibilidades e alternativas. O foco é um só: as possibilidades.

Entretanto, convivemos em um mundo onde proliferam os olhares de mosca. Embora natural para a mosca, o foco no esterco representa, para os humanos, um padrão destrutivo. Esse olhar seleciona meticulosamente os aspectos construtivos para, em seguida, descartá-los, enfatizando a destruição e a decomposição moral e humanística. Com um viés contaminado, instala-se a obsessão por defeitos, perversões e ruínas.

Neste momento, manifesto solidariedade à mosca, pedindo desculpas pelo uso indelicado de sua estratégia de sobrevivência como metáfora. Feita a reparação, prosseguimos, aproveitando para lembrar ao leitor que o mesmo se aplica à abelha: trata-se apenas de uma (excelente) metáfora.

Quem adota o olhar das abelhas encontra alicerces para iniciativas construtivas. Valoriza as cores, a beleza, a abundância de recursos disponíveis para a coletividade, recursos que, coletados, são compartilhados com o grupo, o qual, por sua vez, executa as ações necessárias.

Ao avaliar a realidade objetivamente, está-se apto a expandir a visão a cada saída a campo. Aliás, é essencial expandir o horizonte, o que pode significar acesso a mais e melhores recursos. Observa-se de uma perspectiva ampla, planeja-se, traça-se estratégia e executa-se a coleta.

Os seres com olhar de abelha se destacam por compartilharem direções e recursos. Quando olham de maneira construtiva, não sentem necessidade de reter tudo para si. Compreendem que, além do horizonte, há mais a ser descoberto. Ao agir positivamente, resta-lhes pouco tempo para criticar ações alheias.

Por outro lado, aqueles que cultivam o olhar de mosca se especializam em identificar falhas, defeitos, problemas e intenções duvidosas. Ou seja, fixam-se nos detritos da existência. Semelhantes a engenheiros de estruturas já concluídas e descontentes com suas vidas, concentram-se em averiguar, na vida alheia, o que julgam ser a “normalidade”.

Vestindo muitas vezes a luz e a cor de sombras, transformam possibilidades em obstáculos, tentativas em prejuízos. Com o olhar deteriorado pelo cotidiano e as cabeças inclinadas, focadas no chão, irritam-se ao ver os seres com olhar de abelha realizando inúmeros projetos, festejando.

Creio que muitos seres com olhar de abelha, depois de serem alvo dos seres com olhar de mosca, desistiram. Perderam o brilho, a melodia, a alegria. Seguem uma trajetória incolor. Pobres seres mosca! Isolados, conformados e silenciosos. Desanimados, esquecem as demais possibilidades e se habituam a uma jornada restrita.

O pescoço, acostumado a inclinar-se para o chão, perde a flexibilidade, não permite mais a contemplação do horizonte e, em um esforço de sobrevivência, rejeita-o. O olfato, habituado ao fétido, já não distingue os aromas aprazíveis, privando-se dos prazeres simples de encontros e refeições. Os seres mosca, exasperados, anseiam por destruir. E destroem. Desejam que o mundo espelhe sua visão distorcida.

Defendo que não devemos desistir nem perder o olhar de admiração. Precisamos ser compassivos, respeitar a dor dos olhares de mosca, mas não nos deixar subjugar por eles.

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