Lab Educação 2050

As incoerências do conviver: por que o bom senso sustenta a vida entre estranhos

Os desafios do dia a dia mostram a importância do bom senso para uma convivência harmônica.

Conviver, do latim convivere, significa viver junto. Vivemos juntos com nossos amores e aprendemos a lidar com as dificuldades do dia a dia geradas pelas diferenças nas necessidades, hábitos e rotinas que nos acompanham boa parte da vida. Negociamos limites, dialogamos sobre desconfortos, acordamos aspectos da convivência que permitam a todos ficar bem grande parte do tempo.

E quando vivemos juntos com estranhos? Eles estão no condomínio, no trabalho, no shopping, na rua, nos diversos estabelecimentos comerciais, no trânsito e em qualquer lugar da porta para fora da nossa casa.

Com os nossos amores, por mais difícil que seja em alguns momentos, podemos dialogar e contratar, criando as nossas regras de convivência, mas no coletivo dependemos do bom senso de cada um.

E, afinal de contas, o que é bom senso? Segundo o dicionário Michaelis, significa (a) faculdade natural de julgar (algo, alguém) de maneira correta e equilibrada; (b) capacidade ou aptidão de distinguir o certo do errado, o bem do mal, o verdadeiro do falso, em questões cotidianas e corriqueiras que não exijam grandes reflexões ou soluções científicas ou técnicas, resolvendo assim problemas conforme o senso comum.

Considerando que cada um de nós adquiriu um conjunto específico de valores e os incorporou de maneira particular, cada um interpretará o bom senso também de um jeito individualizado.

Somos regidos por regras sociais, regras de trânsito, regras de atendimento em órgãos públicos, regras do consumidor, um conjunto de leis e a própria Constituição, justamente para facilitar o conviver, para que as pessoas possam viver juntas respeitando os limites dos outros. Mas, para isso, as regras precisam ser seguidas.

Diariamente me vejo em situações em que os limites são invadidos e o bom senso, do meu ponto de vista, não é de fato bom senso: pessoas correndo para passar na frente de outras e ficar em primeiro lugar na fila; som em altura que invade o espaço e a privacidade de outros, muitas vezes fora do horário das regras sociais; atitude desrespeitosa diante de outra pessoa em prol de necessidades individuais; brigas no trânsito; tomada de decisão individual e individualista em contextos que envolvem outras pessoas, exclusivamente para tirar proveito e atender aos próprios desejos.

Toda vez que uma decisão é tomada considerando exclusivamente o próprio umbigo, o conviver e o bom senso deixam de ser considerados, e o viver coletivo se torna cada vez mais difícil e complexo. Isso é triste: somos seres coletivos e dependemos desse viver coletivo para a nossa sobrevivência.

Neste momento, gostaria de fazer um convite: a cada decisão que você tomar, a cada atitude ou comportamento, coloque em seu pensamento os impactos dessa ação e dessa decisão. Ela envolve outras pessoas? Outras pessoas poderão ser impactadas? Há potencial de invasão? Posso fazer mal a alguém? Que atitudes posso tomar hoje para não invadir o espaço do outro? Existe alguma regra relacionada à minha decisão? Vou descumpri-la?

Se cada um de nós fizer a sua parte, ponderando o desejo individual e os limites coletivos, podemos estabelecer relacionamentos respeitosos com os estranhos da nossa vida e ganhar tempo de vida (como diz uma amiga muito querida, Maku de Almeida), dedicando nossa energia ao que realmente é importante para nós mesmos.

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