Comparação e julgamento: como o ciclo de comparar abala a nossa autoestima
Comparar pessoas é uma violência que fere quem compara e quem é comparado, e afasta da realidade.
Desde muito cedo, ainda criança, eu ficava impressionada com as pessoas grandes se comparando ou comparando umas às outras. Em uma família muito grande, nós, crianças, éramos com frequência submetidas aos tribunais dos adultos, que nos definiam com seus barulhentos julgamentos. Nem eles próprios imaginavam as pequenas feridas que iam se abrindo naquelas jovens psiques.
De modo semelhante, nas histórias infantis, aqui e acolá, tragédias representavam o desfecho de uma sequência interminável de comparações. Acredito que todos conseguem se lembrar da madrasta da Branca de Neve que, já dona e proprietária do pai da menina e de seus bens, se desespera ao se comparar com a alva beleza da enteada. Com a duvidosa parceria do seu espelho “mágico”, constrangido, ameaçado e forçado a manter a rainha no pódio inconteste da beleza, a sentença para a Branca, ganhadora da comparação, foi a morte.
Um drama que se repete exaustivamente, com classificações em escolas, empresas e, maldição das maldições, nas redes sociais. Há uma definição deslocada da realidade, de padrões e critérios, e as pessoas se colocam (ou são colocadas) além ou aquém desses limites ensandecidos.
É violento comparar pessoas, uma violência tão absurda e tão contundente que provoca dores e feridas arrastadas pela vida afora. Há dor dos dois lados: de quem compara e de quem é atingido pela comparação. Muitas vezes, essa é uma prática que passa de uma geração a outra, naturalizando a violência ou mesmo apelidando-a de “método”.
Permeando esse processo, nada simples, está a dificuldade um tanto coletiva de pensar, de refletir, de analisar os dados da realidade objetiva. Quanto mais nos distanciamos da realidade, mais usamos nossos repertórios internos para julgar, os outros e a nós mesmos.
Nossos diálogos internos, representantes onipresentes dos adultos que colaboraram na formação do nosso ego parental, reduzem nossa perspectiva e esfarelam nossa percepção objetiva da realidade. São ruídos abrasivos, que ocupam o espaço da serenidade, do autoconhecimento, do estabelecimento de um relacionamento compassivo com quem somos e com nossa história.
Sob esse peso, e sem a habilidade, não desenvolvida, de pensar, sobra a válvula de escape de julgar e, por consequência, comparar.
É um alívio momentâneo que nos leva a rotular pessoas, coisas, acontecimentos, tudo isso parametrizado por nossas imagens internas desfocadas ou desqualificadas.
Um alívio de curtíssima duração empurra as pessoas a buscar filtros, intervenções e posicionamentos que as façam diminuir o fosso que, fantasiosamente, as separa dos padrões. Esse fosso parece aumentar em ritmo mais acelerado que as providências.
O frenesi de comparar e julgar afasta as pessoas, cada vez mais, da possibilidade de reconciliação com as imagens reais de si, do outro e da realidade.
Hoje, o espelho mágico que um dia enlouqueceu a madrasta da Branca de Neve está multiplicado em milhões de telas. Crianças, jovens e adultos são abduzidos pelo desespero de serem comparados e de não “parecer com”, ou não “ser melhor que”, ou não “ser tão ruim assim”, gerando enredos de contos de terror.
Histórias se multiplicam com pessoas assumindo fraudulentamente vidas ou personagens que não lhes pertencem. Pessoas são excluídas por não atenderem às demandas de um padrão mutatis mutandis, que mantém pilares históricos de exclusão de raça, gênero, situação socioeconômica, origem, etnia, ideologia religiosa ou política e os sofistica, acrescentando camadas que são transmitidas em aceleração epidêmica de uma pessoa para outra e, depois, para as gerações seguintes. Muitos desistem no caminho.
Nós, humanos, não somos comparáveis. A nada, nem a outro ser humano. A história de cada um é particularíssima, cada passo tem ritmo e direção únicos.
Única e incomparável, cada pessoa pode entregar ao mosaico da existência cor própria, luz própria, música própria, ritmo próprio e as próprias sombras. Única, incomparável e pensante, cada pessoa poderá se somar a outras tantas pessoas pensantes para construir possibilidades de expansão e avanço, para fugir dos encolhidos pântanos dos julgamentos e das comparações.












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