Lab Educação 2050

Falácias e manipulação: como o controle social se sustenta na obediência

Falácias, de Aristóteles a Schopenhauer, sustentam a manipulação, e conhecê-las nos protege.

Sempre houve manipulação. As mentiras atravessam os milênios da existência da nossa espécie e seguem poderosas como forma sutil de controle. O fator que altera a abrangência do seu poder é a rapidez com que os mecanismos de manipulação são transmitidos de uma pessoa para outra. Esse fluxo está cada vez mais acelerado.

Examinando a história, encontramos absurdos perpetrados com base em mecanismos de manipulação. Dos inúmeros exemplos, cito poucos: a caça às bruxas, a Inquisição, a perseguição aos judeus, a escravização e, bem recentemente, a perseguição implacável a cientistas e jornalistas.

O poder do controle depende da manipulação, para que muitos pensem, sintam e façam o que poucos desejam. A pessoa controlada tem pouco contato com a realidade (e mesmo esse “pouco” é percebido por meio de uma lente de distorção). Ela tem baixa percepção das próprias necessidades e das necessidades reais das outras pessoas (as suas necessidades e emoções serão definidas pelo controlador) e não usa suas capacidades intuitivas e lógicas, trafegando em definições manipuladas pelo controlador.

Do meu encolhido ponto de vista, o mais doloroso é ver a pessoa controlada não usar a dádiva da autonomia e da realização do próprio potencial. É como se dela fosse extraída a própria conexão com a realidade e esse vazio fosse substituído por comandos sutis e não tão sutis de controle.

Dois aspectos me inquietam: como e por que o manipulador seduz tantos? E, o que mais me intriga, o que leva uma pessoa a obedecer cegamente a comandos manipulativos?

Observando os manipuladores, podemos perceber o uso sistemático e deliberado da falácia. E isso é muito antigo: o primeiro a falar do assunto foi o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), na obra De Sophisticis Elenchis (Refutações Sofísticas). Nesse texto, ele descreveu 13 falácias. Outro filósofo, Arthur Schopenhauer (1788-1860), no livro A Arte de Ter Razão, descreve 38 estratégias para ganhar um debate de qualquer maneira. Seu livro pode ser considerado um manual de abusos argumentativos.

Falácia é uma palavra originada do latim fallere. Significa enganar. Abrange argumentos incoerentes, sem fundamento, inválidos, falhos, mentirosos. A falácia pode ser considerada uma armadilha que faz parecer convincente uma informação sem nenhum contato objetivo com a realidade. Ao transitar por notificações e postagens em redes sociais, deparo-me muito frequentemente com a falácia lógica, evidenciada pelo uso manipulativo de linguagem inadequada e de argumentos falhos.

Conhecer as falácias pode nos proteger, uma vez que a pessoa controladora e manipulativa as conhece e as usa deliberadamente, com propósito planejado.

Deem uma olhada em algumas falácias; muitas delas podemos identificar em uma rápida verificação das notícias do dia:

  • Apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam) — “Como os cientistas não provaram que determinado remédio não funciona, é porque funciona.”
  • Falso dilema — “Ou vota no Eurípedes ou o mal prevalecerá.”
  • Apelo à força (argumentum ad baculum) — A pessoa controlada fica sabendo das consequências desagradáveis caso discorde do controlador.
  • Apelo à piedade (argumentum ad misericordiam) — A manipulação é feita por meio do uso do estado fragilizado do controlado.
  • Apelo aos preconceitos — O controlador usa a emoção para carregar de drama aspectos relacionados à crença ou à moral do controlado.

E, para encerrar esta pequena amostra:

  • Ataques pessoais (argumentum ad hominem) — Em vez de contra-argumentar, o manipulador ataca quem falou, agredindo o gênero, o caráter, a origem, a raça ou a religião da pessoa.

É natural que, junto das falácias, estejam as violências, os constrangimentos, as ameaças e a semeadura do medo.

Vamos ao outro lado deste fenômeno: o que faz a pessoa engolir sem pensar argumentos, ameaças e visões assombrosas de um futuro distópico?

A obediência é o fator primordial, do qual derivam todos os outros comportamentos que mantêm uma pessoa sob o controle de outra. A pessoa controlada é treinada, desde a infância, a não contestar as “verdades” de pais, professores e religiosos. É muito raro que, no lugar da imposição, haja o estímulo ao pensar autônomo.

Derivados dessa subserviência crônica são a tolerância e o conformismo, que se sustentam na não qualificação das raras objeções. Afinal, quem controla sabe mais do que quem é controlado, a ponto de a pessoa controlada perder contato com seus sentimentos e temores e acreditar piamente em mentiras flagrantes.

Junto com essa conformação ao controlador, a pessoa controlada se volta contra aqueles que desmascaram, protestam ou apontam. Apontar para a realidade (“O rei está nu!”) faz a turba se voltar contra quem apontou, mesmo que enxergue a nudez. Pois a pessoa controlada duvida de si mesma. O tempo todo. Ao não entender, atribui a si mesma a falta de inteligência suficiente. Quando pensa em recusar o comando, julga-se preguiçosa e, quando um pouco de consciência se aproxima, vê-se fraca e incapaz de se movimentar por si mesma.

Uma missão que se faz fundamental é ampliar a consciência, manter o olhar atento para qualificar a realidade e atrair, com gentileza, as pessoas controladas para a lucidez. É hora de fazer isso aos poucos, cada um na sua bolha, com convites emocionalmente educados para analisar, verificar, fundamentar, dialogar, olhar em volta. Talvez não com a velocidade necessária, mas poderemos formar uma grande corrente de combate às falácias.

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