Honestidade em tempos de mentira: por que a desonestidade se normalizou
Com Rui Barbosa e o código dos samurais, uma defesa da honestidade num tempo de mentira normalizada.
Navegando nos mares das mentiras, das notícias falsas e dos enganos, invariavelmente me assusto. Ao analisar as ondas pútridas dos engodos, ainda me espanto ao saber que pessoas escolhem mentir e outras tantas escolhem aceitar a manipulação.
A honestidade está na ponta oposta desse comportamento. Uma pessoa honesta será honrada, respeitada, digna. As outras pessoas saberão que, ao conviver com a honestidade, não serão submetidas a mentiras, fraudes e enganos.
Pessoas honestas foram (e ainda são) admiradas, respeitadas e vistas como modelos por descendentes, alunos e equipes. Como em um oásis no deserto, conviver com elas é um refrigério, é leve, é seguro. É um alívio poder desativar o sistema de desconfiança crônica e confiar que aquela pessoa fala com cortesia o que precisa ser dito, sem alterar dados e fatos. É uma dádiva saber que, dada a palavra, a pessoa cumprirá, tal qual contratado.
Contratos são feitos respeitosamente e cumpridos com honradez. É a dignidade expressa pragmaticamente em ações que, por sua vez, se combinam com os discursos. Vivi em ambientes onde a honestidade era esperada como valor imprescindível. Convivi com ambientes onde a honestidade era propalada e pouco praticada. Convivi com homens e mulheres de extraordinária honradez, que muitas vezes pagavam caro pela coerência e pela consistência, mas o faziam sem dor. Faziam com consciência.
Trabalhei em ambientes em que a honestidade era quesito básico, e os episódios de dolo assustavam verdadeiramente, por serem absolutamente fora da prática da grande maioria.
Nos últimos anos, pude experimentar o outro lado: comportamentos pautados pela mentira quase patológica, ausência de dignidade e honra, incoerência e danos variados como consequências dolorosas. Nem essas experiências traumáticas e abusivas me prepararam para ver a honestidade vilipendiada e fragmentada e sua gêmea oposta, a mentira, assumir a maestria da convivência coletiva.
A desonestidade, acompanhada de sua corte (mentira, falsidade, manipulação, roubo, hipocrisia), domina as cenas, com texto dramático e grandiloquência violenta, tomando o palco e mesmerizando numerosas plateias. Como pode? As pessoas não percebem? Não notam os argumentos embasados em mentiras flagrantes? Os ouvidos estão dotados de filtros de conversão? Estarão hipnotizadas?
É possível entender a gênese dessa cegueira coletiva, mas isso é igualmente assustador. E, certamente, nada disso é tão novo assim.
Em um discurso no Senado Federal em 1914, Rui Barbosa, político baiano, jurista, advogado, diplomata, escritor, filólogo, jornalista, tradutor e orador, exclamou, colérico: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra; de tanto ver crescer a injustiça; de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
A revolta que animou esse discurso é, mais de um século depois, justificada diante dos absurdos coletivos noticiados a cada dia e dos relacionamentos falsos e extorsivos nos ambientes privados. A desonestidade adquiriu status de elegância e se “normalizou”. Um horror!
A reação às observações honestas e gentis ainda é de espanto. Muitas vezes preciso me explicar: por que não aceito determinadas propostas de trabalho, por que não faço determinadas atividades, por que escolho não conviver com determinadas pessoas. Manter a coerência com uma decisão pela honestidade é, em alguns curiosos momentos, objeto de zombaria disfarçada de brincadeira.
Alimento minha intenção, minha decisão e minhas ações em diferentes fontes. Ainda há pessoas honestas, generosas e autorresponsáveis. Há textos e estudos que fortalecem minha decisão. E há diálogos especiais, nos quais abasteço minha força interior para não perder a esperança.
Longe dos tempos de hoje e ainda muito atual, está o Bushido, o código de conduta dos samurais, que ressalta valores morais elevados. Os samurais viveram no Japão do século 8 ao século 19, e seu código de honra ainda é disseminado, mesmo fora do Japão, e é extraordinariamente adequado para a manutenção de uma convivência humana e honesta. Suas diretrizes são atuais e aplicáveis. No Credo dos Samurais, um trecho diz: “Eu não tenho o poder divino, faço da honestidade meu poder divino”.
Decidir pela honestidade inclui a fidelidade e a lealdade a um propósito de evolução coletiva e privada. A fidelidade demanda sinceridade nas palavras e nos atos. Coerência e consistência sustentam a decisão. Conviver com pessoas honestas nutrirá a jornada. Elas ainda existem. Ainda há esperança!












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