Lab Educação 2050

Depois do cinema: como cada pessoa preenche as lacunas com a própria história

Uma conversa após o filme mostra por que julgar pessoas, públicas ou próximas, exige cautela.

Ao sair do cinema, conversando despretensiosamente com minha filha enquanto atravessávamos o shopping vazio no início da madrugada, fui surpreendida pela percepção desta mulher linda ao meu lado. Ela e eu preenchemos de modo particularíssimo as lacunas que o filme não contemplou e decidimos, a respeito da personagem central, se havia culpa ou não.

Ainda envolvida com o filme, de que gostei imenso, eu assobiava o belíssimo noturno de Chopin, trilha sonora da relação da personagem com o filho. Acho esses momentos que esticam a experiência espetaculares.

Impactada pelo filme e pela conversa, gerei uma animada conversação no meu condomínio mental por alguns dias. Ainda hoje, uma semana depois, há vozes remanescentes que se acendem aqui e acolá no meu pensamento. Nas vezes em que conversei a respeito, pessoas diferentes trouxeram contribuições ricamente diferentes para essa reflexão. As considerações se estenderam para outras áreas e poderiam ter gerado conversas longas, caso a vida real não nos abduzisse.

E quando lemos um livro e estranhamos a versão em filme? Discordamos da abordagem, do cenário, da composição dos personagens...

Um filme adaptado de um livro muitas vezes deixa de apresentar os pensamentos e sensações dos personagens que, calcados nos nossos próprios pensamentos e sensações, constroem uma composição única e quase real.

E é preciso conversar um bocado para identificar os pontos consonantes e os que divergem. Conversar, trazendo para o diálogo a certeza da incerteza, a leveza da ignorância parcial, o bom humor que antecede as descobertas. Caso contrário, é disputa de pseudocertezas, debates chatos e desgastantes que afastam as pessoas.

Saindo do mundo da arte, esse é um recorte da vida. Pouco sabemos das pessoas em geral e das que estão ao nosso lado em particular. Em cada um, do nariz para dentro, há um mundo interior intenso, que nem depende da porta do guarda-roupa do mundo de Nárnia para ser acessado.

É curiosíssimo (melhor dizendo, eu acho curiosíssimo) assistir a analistas sérios, com a sobriedade de um Sherlock Holmes das almas, buscando identificar razões, intenções e motivações de personagens da vida pública, esticando o olhar para um mundo que nem o próprio personagem muitas vezes consegue interpretar.

É como ao assistir a um filme: vejo os analistas preenchendo as lacunas com as próprias percepções, influenciadas pelos próprios condomínios mentais.

Cada analista, com sua Nárnia, desenha versões da figura analisada. Naturalmente, nossos mecanismos de sobrevivência como espécie nos permitem identificar algumas informações reais, sinais de alerta... que poderiam, talvez, ajudar a deslindar esse complexo cipoal, caso escutados com atenção.

Muitas vezes escuto pessoas dizendo: “Conheço fulano como a palma da minha mão!”. Tenho a tentação de dizer (e às vezes digo, quando a ocasião permite): “Mostre-me a sua mão e a descreva em detalhes”. Quem chegou até aqui, experimente: feche os olhos e tente imaginar a sua mão. Depois, confira. Interessante, né?

Minhas reflexões nos últimos tempos, diante dos diferentes cenários que nosso planeta apresenta, muitas vezes me obrigam a um questionamento de fora para dentro. Minha primeira reação é tomar partido imediatamente (como no filme). E assim como, ao assistir ao filme, defendi a personagem por questões da minha própria biografia, pois vivi pequenos retalhos de vida semelhantes aos dela, aqui, neste cotidiano árido, preciso trazer minha lucidez para o jogo, de modo a não me precipitar em decisões, julgamentos e encaminhamentos.

Dureza silenciar todas as vozes internas para escutá-las uma de cada vez, tirar os vieses tiráveis, checar os dados disponíveis e aliviar minha consciência de debates inúteis.

É quase um alívio quando a realidade me devolve evidências de que, afinal, eu não estava tão longe assim nos meus julgamentos. Isso acomoda o desconforto e permite que eu não vergue sob responsabilidades que talvez não consiga honrar.

Neste fim de semana, após profunda reflexão, mandei mentalmente um abraço para os familiares do militante russo que morreu misteriosamente em uma prisão; para as tantas pessoas que foram vítimas de violências públicas ou privadas, físicas ou emocionais; para tantas crianças que foram privadas da convivência parental e não podem contar com cuidado e segurança; para adultos que, sem conseguir domar os próprios pensamentos, seguem, sem pensar, pensamentos estrategicamente aplicados para controle; para aqueles atingidos pela inconsciência, pela mentira, pela manipulação.

Meus pensamentos e sensações preenchem as lacunas das notícias, direcionando meu olhar para os impactos, na vida de muitos, das ações perversas de poucos. Fico sem ar diante da magnitude da tarefa de fazer alguma coisa para minimizar essas crateras emocionais na vida das pessoas. Após muito pensar, em silêncio, no meu canto aqui na Vila, busco conforto na ideia (ou projeto) de sensibilizar as pessoas para a adoção de padrões de colaboração simples e persistentes. Pouco a pouco, podemos ampliar a rede de lucidez e respeito. Nossa espécie precisa, nosso planeta precisa.

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