Lab Educação 2050

Educar filhos: como a criança interna dos pais disputa espaço com a dos filhos

Criar filhos exige equilíbrio diário entre amor, autonomia e as heranças de quem educa.

Algo que sempre me atrai a atenção são os comportamentos humanos. Curiosa desde sempre, fico a imaginar como foi a infância deste, daquele, do outro. O que será que aconteceu para gerar adequações e inadequações? Como eram os pais, a família, em que contexto cresceram esses seres, às vezes tão perdidos pelo caminho?

Parentalizar é o grande desafio para todos os envolvidos na empreitada. E é um grande acontecimento da vida, para o qual muito raramente nos preparamos. Mães e pais, cada um com seu pacotinho de repertório vivido, entranhado nas vísceras, recebem o bebezinho estreante na vida, um ilustre desconhecido.

Com desejo real e sincero (na maior parte das vezes) de acertar, seguem em frente, escutam atordoados os conselhos (e críticas) de tias, mães, sogras e avós e se vão, às vezes a trancos, às vezes a barrancos, levando adiante a missão. Um caldeirão de emoções intensas, de largo espectro, é o cenário.

Esse pequenino ser, o bebezinho, precisa muito de atenção plena, de amor, de toque, de cuidado, de atendimento às suas necessidades básicas. Precisa que os humanos à sua volta tenham disponibilidade emocional para acompanhá-lo de perto por um pedaço da jornada, para estimular sua autonomia em outro trecho e, por fim, para sair elegantemente de cena, com um amor disponível e transbordante à distância, mantendo-se fora do palco.

Difícil, não é? E sabe quem interfere, em tempo integral, nesse saudável desenvolvimento? A criança interna de quem cuida. O foco fica dividido entre as necessidades dos filhos e as dores das necessidades não atendidas de uma criança abrigada no porão mental dos pais. E os filhos passam a servir de intermediários para a resolução dessas necessidades.

Sem recursos suficientes para entender ou lidar com aspectos bem pragmáticos da rotina, a criança abrigada no corpo adulto passa a disputar o palco com as crianças reais, que seguem experimentando suas descobertas, dores e maravilhamentos.

O movimento de estimular a autonomia dos filhos, de estimular seus voos exploratórios, de permitir que eles desenvolvam seus próprios repertórios de acertos e erros são ações diretamente conectadas à consciência e ao autocuidado dos pais.

A dor maior é constatar que, a partir do fim da primeira infância, os filhos já não “precisam” tanto dos pais e já expandiram seus círculos sociais. O desespero se instala ao longo dos anos “teen”, a adolescência, quando a expansão continua e os primeiros conhecimentos, valores e repertórios são contestados e validados (ou não). Manter a distância respeitosa pode ser um presente para os filhos.

A criança interna, nesses momentos, em animado debate com os resquícios das figuras parentais do passado, insiste em controlar, superproteger, cercear. Tem medo de que algo possa acontecer, de que os filhos não consigam ultrapassar as barreiras, de que o mundo esteja muito difícil.

É assustador pensar que precisamos criar nossos filhos para que não precisem de nós, para que desenvolvam seus próprios recursos, para que confiem em si mesmos e na própria força interior. Pois essa é a manifestação mais profunda e sofisticada do amor: acompanhar respeitosamente a capacitação dos filhos e vê-los voar por trilhas que muitas vezes sequer conhecemos.

Neste momento, preciso pedir sua autorização, leitor. Devo partilhar aqui algo muito complicado de ouvir e que pode soar um pouco duro demais.

É quase desonesto quando eu, a partir da posição de poder parental, subtraio dos meus filhos o direito de viver a própria vida.

Quando, para atender às minhas necessidades egoicas, rejeito o ser humano em expansão à minha frente, extorquindo um respeito ritualizado. Quando forço a conformidade ao que penso, ao que acredito, ao que faço.

Essas são receitas simples para marcar aquela criança de tal forma que, quando chegar o momento de assumir o papel parental, o ciclo se repetirá: uma criança em sofrimento disputando espaço com uma criança em desenvolvimento.

Posso e devo validar e dar significado a esse precioso relacionamento por meio do amor e das pequenas práticas amorosas. Preciso e devo renunciar às práticas que estimulam a dependência e a falta de autonomia. Como?

Por um caminho de presença plena no presente, permeado pela consciência, pelo fortalecimento da independência, pelo exercício do desapego e pelo exemplo. Precisamos dedicar um tempo importante a parentalizar a nós mesmos, a entender e suprir nossas necessidades e dores, de modo que o relacionamento com nossos filhos não seja pautado pela nossa criança interna.

Ao encontrar meus próprios significados, não preciso realizá-los por meio da vida dos meus filhos.

Deixá-los ir, mantendo abertos a porta e o coração, honrar a capacidade de cada um de pensar, de dar conta das próprias decisões. Escapar da tentação de julgar e intervir; respeitar os contratos, tarefas enfileiradas que parecem tão simplinhas, mas cuja aplicação é bem mais complexa. Muitos abandonam o propósito, cuja operacionalização é tão cheia de acertos e erros que, por vezes, falta o ar.

O conflito entre a criança interna e os filhos é tão grande que, em algumas situações, ganha a criança abrigada no corpo adulto e os filhos são abandonados. Mas esse é um assunto para outro domingo destes.

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