Criança interna e felicidade: como a infância molda a capacidade de ser feliz
Confiança, coragem e autoestima nascem na infância, e cuidar da criança interna pode nos libertar.
Felicidade, como quase todos os estados da existência humana, não é permanente. Não está automaticamente contida em grandes feitos ou aquisições. Penso que estar feliz pode ser associado à autonomia possível, à liberdade de fazer as próprias escolhas e a não estar subordinada passivamente a pessoas e contextos.
Para chegar a esse ponto, há uma jornada de compreensão de quem sou, onde estou e com quem estou onde estou. Simples de encadear em uma frase, cada fragmento da sentença indica caminhos a percorrer.
Antes de prosseguir, é importante um pedido. Pessoas cuidam de bebês com os recursos que têm. Nossos pais trazem consigo um alforje lotado de estratégias aprendidas que, muitas vezes, são aplicadas sem pensar. Portanto, não parece legítimo atribuir culpa a quem quer que seja.
Essas reflexões, que se seguem a esta primeira, têm o propósito de nos dar coragem para assumir nossa criança interna: agradecer e honrar quem veio antes, mas trazer para os nossos braços o cuidado, a cura e a expansão de possibilidades para a alegria, a leveza e a felicidade.
Quem sou? Pelo que passou minha pequenina eu? Cada humano com quem me relacionei nos meus primeiros meses deixou presentes intangíveis que fortalecem ou não minha confiança em mim e nas outras pessoas.
A minha pele foi tocada com afeto, validada com carinho, ou com pressa, irritação, impaciência? Recebi colo acolhedor, atento, carinhoso, ou conheci a primeira solidão no berço? O bebezinho ainda não completou seis meses e já se sente bem ou não. Seguro ou não. Amado ou não. Confiante ou não. Sequer imagina o significado das palavras, mas já sente seus efeitos no corpo e nas vísceras. Adultos conectados com a própria criança interna saberão ler os sinais.
Quando adultos, tomar a iniciativa de buscar nossa felicidade ou de resolver os problemas que a impedem parece uma saída lógica.
Na idade adulta, a felicidade exige coragem e confiança para ser qualificada e aproveitada. Os aprendizados que servem de base para isso acontecem antes dos dois anos.
Ali a criança experimenta a iniciativa, começa a perceber opções e ensaia resolver problemas. Nessa fase, as crianças abrigadas nos corpos adultos dos cuidadores, muitas vezes assustados, reprimem e calam a criança que orientam. Perde-se a oportunidade de fortalecer a confiança daquele pequeno ser, e vai embora a chance de fortalecer sua autoconfiança para experimentar as possibilidades do aprender.
E a criança segue a sua jornada, reduzindo aos poucos seu olhar maravilhado para se adequar às circunstâncias, às pessoas, às demandas, à sociedade. Sutilmente, sem perceber, perde pouco a pouco o contato consigo mesma e com o que poderia aproximá-la da felicidade.
Ali, no núcleo da criança interna, a confiança, a coragem e a autoestima juntas podem compor uma base formidável para apoiar a percepção, a identificação e a adoção de padrões mais felizes. Quando examinamos o que nos afasta desses padrões, percebemos quebradas a confiança, a coragem e a autoestima. A lindeza da vida é que podemos assumir a função de recompor os padrões, costurar as fissuras e cuidar das dores para liberar a criança a correr e experimentar a felicidade plenamente.












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