Lab Educação 2050

Dia da Mulher: entre a esperança e o desalento, a violência como jogo de poder

Entre esperança e desalento, a autora vê a violência contra a mulher como jogo de poder aprendido.

Todos os anos, em março, quando começam a aparecer nos meios de comunicação as mensagens comemorativas do Dia Internacional da Mulher, sou arrebatada por dois sentimentos fortes.

De um lado, a persistente esperança de que um dia não precisemos mais de uma data para lembrar quem é e o quanto precisa ser respeitada, valorizada, validada, incluída e, principalmente, vista cada uma das mulheres. De outro, um desalento insidioso se instala no meu pensamento, acompanhado de sua companheira, a impotência, que pesa no peito e dificulta a respiração. Isso mesmo. Pensar nessas coisas dói. Muito.

Muitas vezes me parece que demos muitos passos rumo a um mundo em que seres humanos serão seres humanos, sem qualquer discriminação. Contudo, sou forçada a perceber que retrocedemos, como espécie, em alguns casos, à barbárie.

Sou mãe de duas mulheres corajosas, resolutas, independentes, em evolução, cada qual em sua jornada, enfrentando suas batalhas com garbo e elegância. Convivo também com mulheres assim. Essa convivência alimenta a minha esperança. Sou mãe de dois homens esplêndidos, generosos, resolutos, independentes, cada qual em sua jornada, também no enfrentamento das batalhas, sem destruir pessoas pelo caminho. Convivo com homens assim. Essa convivência alimenta a minha esperança.

Homens e mulheres com os quais trabalho, ou com os quais desfruto do prazer das partilhas simétricas, seguem escolhendo respeito, sintonia, conexão, ou o que traduz um neologismo: “oqueidade”.

Oqueidade é um conceito elaborado pelo psiquiatra Eric Berne, humanista na sua essência, que abrange uma sequência de decisões cognitivas e decisões oriundas da experiência subjetiva inconsciente relacionada à percepção de si e do outro. Cada um de nós é produto de camadas de experiência e de relacionamentos. Se, ao longo desse trânsito, na interação com cuidadores e pessoas de importância, a pessoa puder absorver e modelar comportamentos respeitosos abrangentes, poderá, à medida que evolui, fortalecê-los a ponto de validar a própria existência e a dos demais seres humanos.

Parece poesia, mas não é. A prática violenta contra as mulheres, de inúmeras raízes sociais, econômicas e culturais, também se origina de modelos. Esses modelos são transversais, pois essa violência não se restringe a determinada camada social, econômica, cultural ou étnica, embora possa ser mais impulsionada por qualquer uma delas.

O jogo de poder que constrange, violenta, diminui, anula e, muitas vezes, mata uma mulher é aprendido: cada lance, cada estratégia, cada manipulação, cada movimento de controle, cada palavra agressiva, cada insinuação ofensiva, cada tapa, cada tiro, cada morte.

Penso que ainda há muito a fazer; nos últimos tempos, o retrocesso foi assustador. Havia décadas que eu não escutava falas (vindas de homens e mulheres) tão medievais. Às vezes tenho temor de ver Salem reeditada, quando mulheres sábias, cuidadoras e alegres foram condenadas e executadas como bruxas.

Hoje as violências são categorizadas e nominadas. Comportamentos antigos são batizados com nomes compostos, simples, em geral em outro idioma. De novo, só o nome. São antigas práticas travestidas e, para meu horror, transpostas para as redes, expandidas pelo anonimato, difundidas como discurso e aceitas pelo silêncio cúmplice de homens e mulheres. Sim! Há mulheres que compactuam com a violência propriamente dita e com a criação de novos violentos.

Investi tempo e vida no desenvolvimento de pessoas, como irmã, mãe, gestora e agora mentora, acreditando e plantando, com cuidado e amor, as sementes da convivência respeitosa e pacífica entre homens e mulheres, entre seres humanos habitantes deste nosso pálido ponto azul, a Terra. E ainda escuto que as pessoas não importam, que o resultado é o objetivo a alcançar e que precisa acontecer sem mimimi, e que vocês, mulheres, insistem em nos fazer perder tempo com essas questões “gasosas”, os seres humanos.

Há um grito parado na minha garganta. Uno a minha voz às que clamam e faço da minha a voz das que foram silenciadas.

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