Lab Educação 2050

Abandono parental: como o trauma na infância afeta a vida adulta e como curá-lo

O abandono na infância deixa marcas na vida adulta, e o amor deliberado ajuda a curar feridas.

Cada abandono gera trauma e dívida. O abandonado lidará com essa dor que, se não tratada, poderá acompanhá-lo pela jornada inteira da vida. Aquele que abandona adquire uma dívida que, mesmo negada, estará lá, acumulando-se em pilhas e pilhas de afeto negado, cuidado negado, segurança negada, estímulo negado, validação negada. São diferentes dimensões da inadimplência emocional.

Quero dialogar sobre o abandono parental, mas qualquer abandono tem potencial para gerar dor e dívida. Ou seja, em qualquer época será muito duro lidar com o abandono, mas nada se compara ao dano causado a uma criança abandonada por seus genitores ou cuidadores.

Na infância, a pessoa estrutura a base de seus comportamentos, pensamentos e crenças. Nessa etapa, faz seus primeiros experimentos com emoções e relacionamentos. São experiências fundamentais para um desenvolvimento pleno e essenciais para as demais etapas da vida.

Essa etapa, de certa maneira, gera padrões que serão repetidos à medida que a criança cresce, e define o repertório de que ela disporá para um viver pleno. Padrões e repertórios são constituídos com a mediação amorosa e cuidadosa de um adulto. Portanto, o dano causado pelo abandono é vasto e extenso: parte dos aspectos da sobrevivência prática e alcança horizontes no futuro, podendo gerar inadequações, baixa autoestima, falta de confiança e desesperança.

Um complicador desse doloroso fenômeno é que a criança se responsabiliza pelo “desaparecimento” do genitor ou da genitora. Atribui a si a incompetência e a ausência de razões ou motivos para que aquele ser humano se mantenha na função de cuidado, estímulo e estrutura.

Muitas vezes, na idade adulta, a pessoa lida com questões de pertencimento, autoestima e confiança nas pessoas, com uma busca incessante de uma perfeição idealizada e com isolamento emocional.

Muitos desses sintomas podem ter sido gerados pelo abandono. A identificação dessa relação de causa e efeito é complicada pelo bloqueio defensivo da memória e pela dissociação em relação ao evento doloroso. É muito comum, nos relatos dessas pessoas, a dificuldade efetiva de ligar passado e presente, ou seja, de perceber eventos do passado gerando consequências no presente.

Curiosamente, mais uma vez, a pessoa atribui a si a responsabilidade pelas dificuldades do presente, acreditando que tem defeitos de personalidade que precisam de “correção”, pois a obrigam a ações, relacionamentos e comportamentos inadequados. Muitas vezes, essa culpa sempre presente vem acompanhada de desesperança e desconfiança nos relacionamentos, mesmo nos mais próximos, a respeito dos quais há uma sólida crença negativa.

O abandono pode ser afetivo, material ou intelectual, ou os três ao mesmo tempo. No abandono afetivo, são negados cuidado e responsabilidade. A criança é tratada como incômodo ou com indiferença. A expressão desse abandono se dá por atos (ausência de cuidados básicos), por palavras ofensivas e abrasivas ou pela ausência de contato. A criança tenta se fazer percebida, em um espectro que vai da total inércia e submissão a comportamentos violentos e delinquentes, passando pela superadaptação às pessoas e circunstâncias.

Quando os responsáveis pela criança deixam de cumprir as responsabilidades de provedores, desviando para objetivos narcísicos os recursos destinados à sobrevivência dela, há o abandono material.

A criança, muitas vezes em idade em que ainda não compreende causa e consequência, se vê quase transparente e totalmente sem importância naquela comunidade familiar. Mais uma vez, comportamentos de sobrevivência se instalam, entre eles o medo continuado da escassez, que reverbera por toda a jornada dessa pessoa.

O abandono intelectual se caracteriza pelo desinteresse em orientar a criança, estimular sua capacidade de pensar e de aprender, desprezando o vínculo com a escola ou com qualquer outra fonte de aprendizado. Espécie de maldição de longo alcance, esse abandono vai, aos poucos, podando as oportunidades de desenvolvimento da criança e alcança o adulto por meio de estratégias sofisticadas para suportar a sensação continuada de inferioridade.

Todos os abandonos, cada um a seu modo, assinalam feridas emocionais profundas na criança e afetam suas futuras conexões com outras pessoas, pela dificuldade de estabelecer relacionamentos saudáveis. A tristeza dessa consequência se resume em uma frase: por não ter recebido amor e cuidado, a pessoa não teve oportunidade de aprender a cuidar e a amar.

O que pode mitigar a força desse trauma são cuidados recebidos de um adulto com disponibilidade de cuidado e amor incondicional, paciência para entender os comportamentos da criança e suas dificuldades de expressar emoções, a qualificação dos pedidos de socorro, diálogo respeitoso e construção continuada de confiança.

Para os adultos que abrigam crianças feridas, cuidar dessa criança é a saída. Encontrar uma escuta generosa que permita entender e tomar novas decisões pode ser um caminho curativo.

Experimentar oferecer amor, cuidado e presença pode levar à formação de repertórios de amor, cuidado e presença, restabelecendo a esperança e a confiança.

O amor pragmático e deliberado é curativo. Em qualquer momento da jornada!

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