Burnout e ambiente tóxico: o pesadelo que trouxe de volta uma ferida do trabalho
Relato de burnout em ambiente tóxico mostra a importância da ajuda profissional e da rede de apoio.
Uma noite aparentemente tranquila, com potencial de aproveitamento total para o descanso e a reposição de energia, é interrompida de repente por um pesadelo. Um pesadelo envolvendo pessoas, sentimentos e situações de anos atrás, que deveriam ter ficado lá, volta com tanta força que o sono vai embora.
Ter falado nessas pessoas, dias antes, possivelmente ativou áreas do meu cérebro e fez com que essas memórias invadissem um momento tão precioso, o meu sono sagrado. Quem me conhece sabe que amo dormir e que uma boa noite de sono é imprescindível para o meu dia fluir.
Passei o dia reflexiva sobre isso. Como algo que aconteceu há tanto tempo pode ainda me assombrar com tanta potência? Foi uma experiência de vida realmente impactante: um burnout.
Segundo o Ministério da Saúde, “Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho”.
Eu estava em um ambiente tóxico para mim. Vivia relacionamentos nos quais não tinha espaço para ser eu mesma. Cheguei a um patamar profissional em que estava sendo reconhecida por ter ocupado o meu espaço, por ter aproveitado as oportunidades e por todo o investimento em desenvolvimento pessoal que fiz por anos. Isso gerou desconforto em várias pessoas, e, de fato, não soube lidar com tudo aquilo de maneira assertiva. Esse desconforto virou competição, em todos os lados, inclusive nas minhas atitudes.
Eu me sentia tão ameaçada que, a todo momento, competia por atenção e espaço e queria agradar a todos. Agradar a todos era impossível, e aos poucos tudo aquilo foi me matando por dentro.
Naquela época, tive um aborto, e é impossível não fazer uma correlação com o que eu estava vivendo; talvez eu estivesse, de fato, morrendo aos poucos. Eu ia para casa todos os dias chorando, tentava me distrair com atividades individuais para não ter de interagir com as pessoas, o horário do almoço era um verdadeiro caos interno, e eu sempre buscava pessoas com quem me sentia segura (e nem sempre elas estavam disponíveis).
Tenho certeza de que o relato das outras pessoas que fizeram parte desses eventos seria completamente diferente do meu. Por isso reforço: aquele era um ambiente tóxico para mim.
Ao ser acordada por um pesadelo que me arremessou àquela época, naqueles dias, vivi novamente várias emoções difíceis de sentir. Percebo que ainda não estou pronta para resolver todas essas emoções e sentimentos e que vou precisar respeitar meu tempo. Ainda me sinto machucada quando lembro de tudo, mesmo sabendo que parte do que ocorreu dizia mais sobre as outras pessoas do que sobre mim. Mas, se encostou em mim, se doeu, parte disso me pertence.
Compartilhei com vocês uma situação pessoal de esgotamento profissional, do quanto eu não soube colocar limites naquela época e do quanto isso ainda tem potência de dor. Minha intenção aqui é, de alguma maneira, contribuir com o meu aprendizado de vida.
Um ambiente tóxico não necessariamente será percebido como tal por todos. Cada um reage a relacionamentos tóxicos de maneiras diferentes. Mas, se continuo permitindo que isso me afete, a responsabilidade é minha e não do outro.
Por isso, do meu ponto de vista, é tão importante dedicarmos tempo e atenção aos relacionamentos no ambiente de trabalho. É possível construir relações cooperativas, ambientes leves, o que possibilitará que as pessoas dediquem mais tempo a dar o seu melhor, a usar o seu potencial máximo, em vez de usar o tempo para resolver questões de relacionamento.
Talvez a gente não dê conta de lidar com tudo isso sozinho e precise de ajuda (eu precisei e fui atrás), talvez a gente não precise continuar em ambientes que nos fazem mal, mas precisamos entender o que nos faz agir como agimos e por que certas atitudes doem como doem. Somente assim teremos a possibilidade de mudar de ambiente sem levar essas dificuldades e dores conosco. Na época, dei conta de mudar de ambiente e de aprender com os outros desafios relacionais que se apresentaram, mas certamente algo daquele tempo ainda dói. Tenho convicção de que, em algum momento, darei conta de resolver dentro de mim parte dessas feridas, mas tomar consciência de tudo isso me ajuda a voltar a dormir, sem que o pesadelo atrapalhe meu momento sagrado.












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