Lab Educação 2050

Por que temos medo de mudar: humanos não são borboletas e buscam equilíbrio

Resistir à mudança gera cegueira emocional e social; apoiar exige escuta e passos pequenos.

Mudança é uma palavra pequena, até sonora, que esconde desconfortos, alguns quase despercebidos. E é também símbolo de pelo menos um paradoxo: mudar gera oportunidade de movimento, expansão e até desenvolvimento, mas apresenta o risco, maior ou menor, de sair do previsível para o não previsível.

As reações serão proporcionais às experiências vivenciadas com mudanças por cada pessoa. Cada pequena mudança colabora para a formação de um repertório de enfrentamento das situações. A tendência de boa parte de nós é a manutenção: de horários, caminhos, alimentos, formas de tomar decisão, manejo de erros e abordagem dos conflitos, entre outras coisas. A busca por uma razoável previsibilidade é quase automática, pois a sensação de segurança depende, em algum grau, de saber onde estou e para onde vou.

A mudança sinaliza instabilidade momentânea e, nesse sentido, é entendida pelo nosso sistema como ameaça. E não mudar, muitas vezes, cristaliza a pessoa dentro de um quadro de referência claustrofóbico, o que gera uma necessidade continuada de distorção da realidade para fazê-la caber em crenças e percepções desatualizadas. Ou, em casos mais complexos, arremessa a pessoa em um comportamento de inércia, presa fácil de manipulações autoritárias.

Não por acaso, as pessoas mais vulneráveis a manobras de terceiros se descrevem como conservadoras.

O gasto emocional de manter rígidas as fronteiras na convivência e de escapar de qualquer estímulo para mudanças leva a pessoa a uma espécie de cegueira em relação a si própria, às demais pessoas e aos diferentes contextos. Ao brigar pela manutenção dos velhos axiomas, a pessoa se perde e perde as conexões com a realidade objetiva.

É muito raro que a pessoa perceba por si mesma os desconfortos internos e externos causados por essa resistência. Por isso, a responsabilidade, a paciência e a persistência, além da compaixão (tão fundamental nos relacionamentos cotidianos e, especialmente, nas instabilidades), cabem a quem percebe.

A pessoa que lida com essas questões com um repertório mais robusto terá dificuldade de entender a dificuldade da que paralisa. Nos dois cantos do tabuleiro da vida, uma pessoa não terá facilidade para entender a outra. Para uma, o risco não vale a pena; para a outra, a paralisia é uma espécie de morte em vida.

Em cada contexto (família, organizações, escolas, sociedade em geral), esses movimentos acontecem com uma coreografia básica semelhante e molduras culturais diferentes, pois é um fenômeno humano, que nos atinge como espécie. Temos a tendência ao equilíbrio, ainda que nocivo. E tememos a mudança, ainda que curativa. Podemos acrescentar a essas considerações o ingrediente apimentado da velocidade.

Os estímulos para mudança se apresentam de modo cada vez mais acelerado. Mal se estabiliza um aspecto, outro se apresenta demandando esforço. Tempos voláteis, informações voláteis, relacionamentos voláteis.

Isso leva as pessoas a outro movimento preocupante: a adesão não pensada, automática, superficial, sem consciência. Parece-me tão preocupante quanto a resistência exacerbada, pois aprisiona igualmente. A imagem que invade minhas reflexões é a de um hamster se movimentando dentro da roda. O automatismo é um carcereiro caprichoso: aprisiona ao custo de prazer imediato.

Como todo fenômeno humano, as mudanças atingem cada pessoa de modo particularíssimo. A quem fizer a gestão cabe ter esse olhar. Não há como tratá-las como fenômeno coletivo; o estímulo, sim, será coletivo.

A maneira como cada pessoa interpretará e reagirá a ele se dará de modos e ritmos diferentes. Portanto, cabe a escuta respeitosa. Cabe garantir à pessoa espaço para experimentar, para dar pequenos passos, para se capacitar para os novos tempos e movimentos. Cabe qualificar o repertório de cada uma e facilitar a construção da ponte entre o antes e o agora.

Principalmente, não é honesto, quando falamos de mudança, comparar-nos com as borboletas e suas etapas de transformação. Nós, da nossa espécie, temos a biologia direcionada para buscar, incessantemente, a homeostase, o equilíbrio obtido pela repetição de padrões. A borboleta é aparelhada biologicamente para a mudança. Na lagarta (a futura borboleta) existem células chamadas imaginais, que são a base do processo.

As células imaginais são encontradas vivas e ativas ao longo do tempo em que o corpo da lagarta morre por autodigestão. Na formação da pupa, a fase seguinte, um casulo sedoso se forma e dentro dele uma sopa de proteína com o que restou da lagarta. Nessa sopa, as células imaginais encontram tudo de que precisam para criar a nova estrutura e executar as diferentes tarefas de criação: olhos, pernas, asas, antenas... Ao fim do processo, a borboleta se libera do casulo e alça voo.

Nós não somos borboletas!

Cada passo rumo ao desconhecido é inicialmente uma desestabilização dolorosa seguida de uma estabilização momentânea que antecipa a próxima desestabilização. Ao longo do tempo, nossa estrutura biofisiológica nos lembra o tempo todo da estabilidade anterior, da sensação (às vezes fantasiada) de segurança.

Contudo, é especialmente fundamental atualizar nossos padrões, pois isso nos permitirá transitar pela linha tão tênue da vida com maior amplitude e intensidade.

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