Lab Educação 2050

Jogos de poder e mentira: como o controlador usa a obediência para dominar

O controlador mente, intimida e explora a obediência; cooperação e educação emocional são antídoto.

É impressionante o quanto a necessidade de controlar os mínimos detalhes da existência tira da pessoa a oportunidade extraordinária de estabelecer laços cooperativos. O medo do controlador o faz ver o mundo como uma grande ameaça. Tal como Dom Quixote, louco e desvairado, ele briga com moinhos de vento e afasta as pessoas de si.

Por medo de parecer fraco, o controlador aponta as fraquezas dos outros. Por medo de parecer menos competente, tem um olhar aguçado para os erros alheios. Por medo de parecer menos inteligente, consome um tempo enorme com coisas pequenas, pelo pequeno prazer de parecer “mais”. Um dos recursos usados por ele para dominar as pessoas e fazer a realidade se dobrar aos seus caprichos é a mentira.

Aqui preciso fazer um breve “entre parênteses”. Minha tendência central é entender, acolher a dor e, se for o caso, ajudar a pessoa a reencontrar o seu caminho. Contudo, isso não significa que entenda sempre, acolha sempre e ajude sempre. Há casos para os quais declaro a minha incompetência. Nesses, quando possível, busco fortalecer a mim e às pessoas com as quais convivo para resistir aos jogos de poder.

As pessoas, de diferentes maneiras, buscam adaptar a realidade ao seu quadro de referência. Algumas vezes, de maneira não consciente, assumem papéis em sofisticadas tramas, que nós, analistas transacionais, estudamos sob o nome de jogos psicológicos.

Jogando, as pessoas confirmam sua percepção sobre si, sobre os outros e sobre o mundo; extorquem afeto quando não o têm em abundante fluxo; resolvem seus temores com a realidade intrassubjetiva e objetiva; lidam com o tempo interno e o tempo externo, entre outras profundas e antigas questões.

Os seres humanos precisam ser amados de um jeito que lhes permita sobreviver e, depois, viver integralmente. Negligência ou violência os afastam da estrada mais clara de sobrevivência. Sem aprender a gramática da sobrevivência, jogarão para seguir adiante. Um dia escreverei mais sobre isso. Quase me perdi do meu objetivo.

Jogos de poder

Como escrevi lá no início, há pessoas que deliberadamente exercem o poder sobre outras. São aquelas que jogam os jogos de poder. As razões pelas quais chegam a esse comportamento são múltiplas; são muitos os porquês a responder.

Percebo, predominantemente, nos olhares dos controladores que conheço mais de perto, o medo. Mas já vi frieza e indiferença, também bem de perto. Identifico frieza e indiferença também no olhar dos operadores do jogo de poder público.

Na década de 1980, o psicólogo Claude Steiner, um dos pioneiros da análise transacional e da psiquiatria radical, explorou esse tema. Passaram-se mais de 40 anos, e seu texto é atual, pujante, assustador, e pode ser cotejado, item a item, com os acontecimentos de agora. O que mobilizava Steiner a aprofundar o estudo do jogo de poder era a crença de que há um outro lado do poder, em que é possível conviver com cooperação e humanidade.

Os jogos de poder servem à competição e ao controle e afetam relacionamentos em todos os ambientes. O controlador quer obter vantagens para si e não hesita em criar tantas confusões quanto forem necessárias para “vencer”. Os jogos de poder podem ser grosseiros, violentos, explícitos. Mas também podem ser sutis, tão perigosos quanto os demais, porém mais silenciosos, e, quando abduzem o controlado, este quase não se percebe aprisionado, claustrofóbico no mundo do outro.

Os jogos de poder sutis se alimentam da obediência (muitas vezes confundida com colaboração). E os obedientes saberão justificar com eficácia as reações daqueles que os controlam. Os obedientes não são treinados para perceber e contestar ações desagradáveis, desonestas e violentas dos poderosos. Foram criados no ambiente do “eu mando, você obedece” e seguem obedecendo aos que mandam, sem sequer buscar provas factuais do que são obrigados a tolerar.

Os obedientes, quando olham em torno e percebem conformismo e aceitação dos outros, acreditam que suas objeções não têm razão de ser. Ao obedecer a um controlador poderoso, o deslocamento de foco acontece de maneira quase integral. Os sentimentos, as necessidades e os medos do obediente desaparecem sob a força da premência de atender aos desígnios do poderoso. Aqueles que protestam são rotulados como inimigos perigosos. Se aparece um laivo de dúvida, o obediente passa a duvidar de si mesmo.

O controlador

Aquele que manobra os outros por meio do jogo de poder o faz aproveitando-se das fraquezas alheias, que despreza e desconsidera. As fraquezas são detectadas com uma eficiência assustadora.

O controlador exerce o poder por meio de intimidação, ameaças, manipulação e violência, usando concomitantemente a mentira como estratégia de comunicação deliberada do jogo.

A mentira recebe definições e conceituações de diferentes áreas do conhecimento humano, da distorção da realidade a partir de uma pequena fração à criação de uma interpretação mais abrangente. Ela pode nascer de atos de preservação pessoal ou social. Pode ser uma estratégia de sobrevivência tão ensaiada que passa a fazer parte do “ser” da pessoa.

Contudo, nas manobras do jogo de poder, a mentira tem a intenção de estender o domínio da própria vontade sobre as outras pessoas, negando o direito, a vontade ou as necessidades delas. A mentira serve de condutor da maldade e da injustiça.

Além de explorar a obediência, o controlador usa a mentira para explorar a credulidade e o medo que as pessoas podem ter do confronto. Quem usa o jogo de poder como forma de controle, e a mentira como gramática, sente-se superior aos outros e acha, por isso, que as outras pessoas não têm o direito de saber a verdade.

O mentiroso mina a capacidade do obediente ou do crédulo de lidar com as demandas da própria vida. Isoladas da realidade e com suas percepções e emoções desqualificadas, essas pessoas terão pensamentos e ações desorganizados. O controlador, por meio das mentiras, destrói a vida fora da submissão e da obediência. E faz crer que o sucesso ou o bem viver só virão “se” suas ordens, sutis ou declaradas, forem seguidas. Logo, se nada der certo, a culpa é de quem não foi submisso o suficiente.

A mentira consciente do controlador depende da confiança e da falta de informação. Muitas vezes mascarada de “honestidade”, é tão difundida que a pessoa verdadeiramente honesta é considerada uma anomalia.

Os jogos de poder corroem os fundamentos de uma convivência ética: a manipulação em vez da negociação; objetivos e metas individuais em vez de propostas e ações coletivas; indiferença às necessidades e distanciamento no lugar de contato, cooperação e diálogo.

São poucos os que controlam por meio dos jogos de poder, mas constituem uma minoria poderosa, e sua eficácia deriva do sangue-frio e do planejamento sistemático. Nada fica ao acaso.

Saída

A antítese dos jogos de poder e da competição são a cooperação e a educação emocional. Somos muitos, e muito podemos. Mas esse é um tema que merece protagonismo. Preciso deixar um espaço para Immanuel Kant.

Para ele, um indivíduo não deve mentir em hipótese alguma, pois a mentira pode induzir o ouvinte a praticar determinada ação que não corresponde à sua vontade, e sim à vontade de quem proferiu a sentença não verdadeira. Isso priva o ouvinte de fazer uso de sua total liberdade de ação. Isto é, viola o conceito de direito como um todo, ao violar o direito do ouvinte de saber a verdade.

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