Lab Educação 2050

Contrato com a criança interior: como cuidar de quem fomos e rejeitar padrões

Uma analista revisita a infância e propõe um contrato de vida para ler com a criança interior.

Já faz muito tempo, talvez décadas, que as comemorações dos “dias” me incomodam, das celebrações de Natal aos dias dedicados a pais, mães e crianças.

Passei minha infância em uma cidade do norte de Minas Gerais, hoje uma cidade grande, antes uma pequena cidade do sertão.

Nossa família habitava a mediana do sistema social, e nós convivíamos com pessoas muito ricas (na escola), pessoas muito pobres (que trabalhavam em nossa casa, vizinhas e presentes nas ocupações gerais, inclusive na feira a céu aberto) e imigrantes (japoneses).

Desde sempre, por razões que hoje entendo melhor, minha capacidade de captar o entorno e me agoniar me permitia enxergar realidades absurdas, nas quais as pessoas não tinham muito o que comemorar, além de estarem vivas por mais um dia.

Fui criança em uma época em que as crianças eram pouco escutadas e muitas vezes castigadas por falar, um padrão que não respeitava as camadas socioeconômicas.

Em todas as casas ficava clara a “carga incômoda” representada pelas crianças. Nada se fazia para observá-las, até porque poucos adultos davam qualquer atenção aos pequenos, além da atenção operacional, de manutenção, muitas vezes corretiva.

Os contrastes me assustavam. Muito. Muitas vezes eu não conseguia entender as razões e os motivos, e muito cedo fui à busca de explicações em livros, muitos deles só compreendidos mais tarde.

Em dias dedicados a celebrações específicas, eu observava as crianças: muitas não tinham pais ou nunca recebiam presentes. Aquilo me fazia sofrer. Muito.

Demorei muito a constatar que eu também era uma espécie de órfã emocional. Meus pais, embora imbuídos da tarefa de educar uma multidão de filhos, não conseguiam se aproximar das crianças o suficiente para conhecê-las.

Aquela confusão gerava tantas despesas e tantas preocupações que a sensação que tenho, mesmo agora, é de um vácuo prolongado preenchido de estratégias para escapar dos castigos.

Esse olhar de pertinho acontecia na casa dos meus avós maternos que, por ficar longe, era quase uma Katmandu na minha imaginação, um paraíso que eu perdia quase o ano todo.

Chego à maturidade com um acordo comigo mesma e com minha criança interna. Dispensei com gratidão e honra minhas figuras parentais que, por não terem a capacitação para fazê-lo, não podem ser penalizadas por não o terem feito.

Assumi a missão de cuidar da minha criança interna, escutá-la de pertinho, interessar-me pelos seus sentires e pensares e garantir-lhe um amor tão incondicional que não a abandonaria. Por nada. Por ninguém.

Aprendi esse amor com meus filhos, a quem posso garantir amor abrangente e total, com quem pude adquirir recursos de relacionamento que não tive, com quem pude ensaiar os passos que me trouxeram até aqui. Juntos, vivenciamos desafios gerais e particulares. Junto com os pequenos pedaços de sabedoria, um amor potente e respeitador faz companhia ao nosso conviver fora dos padrões.

Por falar em padrões, eu oficialmente os rejeito.

Hoje há famílias funcionando lindamente sem pais ou sem mães, só com pais ou só com mães. Há comunidades familiares, algumas sobreviventes de inimagináveis abusos, que convivem sem apego às formalidades cartoriais dos padrões socialmente aprovados. O que de fato vale é o amor. Esse não precisa de dia especial: pode ser celebrado todos os dias, com rituais invisíveis.

A quem quiser olhar para a criança interna, incluo aqui uma proposta de contrato. Como analista transacional, sou praticante de contratos. As frases abaixo podem ser usadas em uma leitura delicada para uma ouvinte atenta que mora dentro da cabeça: uma criança que aguardará esse contato, posso garantir.

Uma boa experiência de preparação é fazer esse contrato com filhos pequenos. Convidá-los para uma leitura a dois, bem pertinho, quase abraçados, acolhendo as adaptações que certamente surgirão e contando a eles que nós não sabemos tudo e que podemos aprender muito com eles. E as comemorações não mais terão dias marcados.

Contrato de vida que farei com a minha criança

Somos parte de uma história, eu e você, você e eu.

Uma história feita de pequenos passos, dados um dia de cada vez.

Cada dia pode ser um novo recomeçar. Podemos aprender como caminhar juntos, um entendendo o passo do outro, cada um no seu jeito e ritmo.

Na nossa jornada, o meu eu parental do passado às vezes quer interferir, quer tomar conta do caminho, sem dar espaço ou voz para você.

Saiba que muitas vezes é por medo! Podemos conversar sobre um jeito só nosso, meu e seu, de seguir juntos: deixar os certos e errados do passado no passado e definir o nosso presente adequado, possível, amável. Usar o meu eu do presente e toda a sua potência de Criança Livre, disponível para mantermos entre nós um campo protegido pelo amor.

Proponho.

Cada passo, um contrato. Na dúvida, um diálogo.
Na tristeza, aconchego. Na raiva, respeito. No medo, colo. Na alegria, celebração!
Seguiremos caminhando juntos, passos diferentes, ritmos diferentes, olhares diferentes, e que maravilha que sejam diferentes!
Nosso caminho estará ampliado em maravilhamento! Unidos pelo amor inequívoco, incondicional, abrangente!
Seguiremos construindo nossa jornada, dia a dia, passo a passo.
Seu olhar renovando minhas possibilidades,
meu olhar validando as suas!

Comentários

A conversa acontece no fórum do Lab Digital 2050. Leia os comentários abaixo e clique em “Responder” para participar.

Caderno de exercícios

Pedir ajuda
Info gravada!
Thank you! Your submission has been received!
Oops! Something went wrong while submitting the form.
☁️ Salvamento automático