Emoções não se controlam, se calibram: passo a passo para lidar com o que sente
Pensar e sentir não se separam: nomear a emoção e esperar noventa segundos ajuda a agir com calma.
Nossas emoções nos protegem ou nos arrastam? Demoraram séculos até que as emoções fossem percebidas e incluídas como personagens relevantes no palco biofisiológico do ser humano. Ainda herdamos alguns equívocos dessa caminhada ignorante, expressos em afirmações como “eu sou uma pessoa racional” ou “precisamos controlar nossos sentimentos”, ou na associação da expressão das emoções à fraqueza.
Pesquisadores de diferentes áreas colocaram sob seu cone de atenção o entendimento de mecanismos tão sofisticados e fundamentais para o bem viver, ou até mesmo para o viver. Enquanto estudavam, escutavam (e ainda há quem as diga) frases como “essa mulher está descontrolada, são os hormônios!”, “isso não é coisa de homem, engula o choro!”, “homem que é homem não tem medo”, “nada de raiva, querida, seja uma princesinha!”. Ditas por pessoas de importância na vida da criança, essas frases deixam rastros de culpa, dor, inadequação e vergonha, que impulsionam comportamentos e ações relacionais.
Observa-se em algumas comunidades escolares e familiares um movimento de prover educação emocional aos pequenos. Assim, as crianças podem crescer convivendo com as emoções, sabendo nomeá-las e entendendo seu poder como parceiras na sobrevivência. É por aí que caminhamos rumo a uma saúde que integra as diferentes dimensões da pessoa.
É preciso considerar também os eventos da vida das pessoas que fazem essas afirmações. Elas tendem a não ter autorização para sentir o que sentem e acabam por disfarçar os sentimentos, dando a eles nomes que caibam nas exigências sociais.
Nas tensões, algumas coreografadas como balés da discórdia, é possível ver os interlocutores saírem do papel ensaiado e iniciarem uma escalada de descontrole emocional que pode engatilhar as pessoas que, distraídas, estiverem ao redor da crise.
Antes de mais nada, não se pode segmentar entre emocionados e pensantes. O sentir pode embasar o pensar e, mais espetacular, o pensar pode arremessar ao sentir intenso. Cabe aqui uma reflexão semiótica sobre a palavra “ressentimento”. Ela contém signos dos dois sistemas: um sentimento “sentido” repetidas vezes, a partir de um pensamento “pensado” repetidas vezes. Assim, os pensantes também sentem, e a razão será inevitavelmente enviesada pelas emoções.
É necessária uma pequena mudança de chave, a partir de uma constatação: as emoções não podem ser controladas, uma vez que acontecem um tempinho antes de as percebermos. Mas podem ser calibradas.
Primeiro, damos nome ao que estamos sentindo: raiva, alegria, nojo, ciúme, rejeição etc. Com o nome dado e a sensação acolhida, vamos ao próximo passo. A partir do nome, procuramos entender o que engatilhou a emoção (pode ter sido uma experiência vivida ou a lembrança dela). Identificado o momento emocionalmente carregado, é hora de dar um tempo.
O tempo é bem-vindo para pensar, respirar, entender e decidir, não necessariamente nessa ordem. Cada etapa faz parte da calibração. E não é muito tempo, não: noventa segundos podem fazer a diferença. Se possível, saia de cena. Lave o rosto, tome água, dê uma volta na quadra e respire profundamente, devagar. Pense no que fazer. Pergunte: “O que é adequado fazer neste momento?”.
Várias ações são necessárias: identificar se o gatilho nos pertence, quando vem do nosso funcionamento, ou se a seta foi atirada pelo descontrole de alguém por perto. Se for meu, preciso me concentrar para acolher meu desconforto, acomodá-lo, entendê-lo e adotar um padrão que me proteja nas ocorrências futuras. Se for do outro, é lá que precisa ficar. Preciso deixar bem separadinho: o que é meu é meu; o que é do outro é do outro.
É um começo. Hoje há muito para ler, ouvir, entender e observar dos sábios — pesquisadores ou mestres generosos — que nos ajudam a compreender, honrar e utilizar com sabedoria o conhecimento das emoções.












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