Quadro de referência e QR Code humano: como o passado filtra o que percebemos
Como um QR Code, o quadro de referência condensa as experiências que filtram nossa percepção.
Cada ser humano resolve o enigma de como agir e reagir em sua jornada de vida à sua maneira, muito particular. Essa resolução está ligada ao que a pessoa vê e como vê, ao que sente e como sente, a como interpreta e ao que incorpora, e como, das experiências que tem desde o ambiente uterino e nos anos seguintes. As diferentes camadas de experiência podem, em algum momento, nublar o pensamento e ricochetear em uma ou outra memória relevante, tirando da pessoa as condições plenas de entrar em contato lúcido e descontaminado com a realidade.
A percepção menos enviesada, ou não contaminada, dependerá de conhecer a si mesmo para fundamentar escolhas. Para que isso aconteça, ou seja, para que eu possa direcionar minha atenção voluntária a determinado pensamento, sentimento ou ação, preciso conhecer a origem e o impacto dos diferentes pensamentos, sentimentos e ações que transitam no meu cérebro.
A intrincada coreografia que associa pensamentos, sentimentos, fantasias e julgamentos à realidade objetiva, à comunicação, à tomada de decisão e ao relacionamento com as pessoas aponta para a importância de um processo de desenvolvimento iniciado pelo autoconhecimento. Assim, qualquer processo de mudança supõe flexibilizar (ou atualizar) conteúdos entrincheirados no quadro de referência. Atualizar, portanto, supõe conhecer.
O que enxergamos com lucidez, o que desqualificamos, o que distorcemos? Entre outras, essas questões orientam a compreensão do que nos caracteriza singularmente, nos distingue dos demais e nos dá uma percepção particular da vida: o nosso QR Code. O nome completo do QR Code é Quick Response Code. Embora só agora esteja sendo notado e adotado em larga escala, ele foi criado em 1994 pela Denso Wave (empresa do Grupo Toyota), no Japão. Trata-se de um gráfico bidimensional que pode ser lido pelas câmeras da maioria dos celulares e contém informações que encaminham o usuário a determinado conteúdo. Podemos dizer, assim, que o QR Code detalha o quadro de referência de produtos ou serviços.
Compreender o nosso quadro de referência e o dos companheiros de jornada nos permite entender as informações e experiências que atuam como filtros ou distorções da realidade objetiva. O quadro de referência é um conjunto geral — perceptual, conceitual, afetivo e de ação — que a pessoa usa para definir o eu, as outras pessoas e o mundo, de forma estrutural e dinâmica. Em particular, é a estrutura dentro da qual o indivíduo responde a perguntas como “Como sei que existo?” e “Quem sou eu?”, “Quem são as outras pessoas?”, “Por que se comunicam como se comunicam?”, “Por que fazem o que fazem?”.
Uma primeira observação importante é que grande parte das experiências ou informações que vivemos ou com as quais entramos em contato será comparada com as já vividas ou conhecidas e, na sequência, desqualificada ou incorporada às referências existentes.
Uma primeira camada de distorção e interpretação são os valores que norteiam processos de decisão ou influenciam o direcionamento de ações ou relacionamentos. É fácil resgatar na memória episódios recentes em que algum dos valores lembrados foi evocado e quais foram os respectivos impactos em pensamentos, sentimentos e ações consequentes. Na camada seguinte estão alojados recursos que balizarão a relação de cada pessoa com as outras ao seu redor, sua posição nesses relacionamentos e o lugar que a pessoa, do ponto de vista do QR, ocupa no mundo que habita.
Aspectos relacionados a saúde, família, comunidade, sexualidade, características físicas, decodificação (significados atribuídos às palavras), raça, herança étnica, história, geografia, herança cultural, ordem de nascimento, experiências do nascimento, experiências intrauterinas e talentos geram sinais particulares que filtram a realidade objetiva e todos os acontecimentos.
Cada ser humano que observamos, admiramos ou repelimos se apresentará por meio dos aspectos do seu quadro de referência. E cada um de nós observará, concluirá, concordará ou não, amará ou não, se relacionará construtivamente ou não por meio dos aspectos do nosso QR.
A todo tempo é possível atualizar nosso quadro de referência e ir eliminando os bloqueios à lucidez. Os diálogos que incluem um olhar respeitoso para a nossa jornada vão abrindo novas janelas de percepção, que permitem decisões.
Nosso olhar pode se abrir e captar um horizonte mais amplo, talvez mais próximo da realidade objetiva.
Gosto de pensar que as pessoas fazem o que fazem a partir de decisões, algumas conscientes, muitas originadas de experiências anteriores que muitas vezes nem são lembradas. Gosto de pensar que cada um de nós pode alterar a própria rota de modo a experimentar novas e límpidas percepções.












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