Lab Educação 2050

Vínculo ou conflito: como aprender com o cotidiano e cultivar relações melhores

Entre o vínculo que ilumina e o conflito que isola, a consciência de si orienta a convivência.

Todos os dias, com maior ou menor abrangência, um aprendizado. Às vezes, uma ampliação de consciência por meio do estudo. Outras vezes, a observação das pessoas e de suas interações oferece informações muito ricas. De vez em quando, uma nuvem sombria permite ampliar meu repertório de respostas. E, em quase todas as vezes, aprendo nos diálogos em que me envolvo. Eles me trazem luz. A caminhada é rica.

Tenho plena consciência de que esse aprendizado, longe de ser romântico, nasce de uma decisão de consciência: estar presente, acionar escolhas diferenciadas em momentos distintos.

Ver através da névoa do frenesi dos dias que vivemos não é algo que caiba em um manual de autoajuda, como “dez maneiras de obter consciência”. Tenho medo dessas soluções rápidas e mágicas, pois às vezes me parece que, em vez de retirar camadas de opacidade, elas agregam novas. E a pessoa, na ilusão de que faz contato, o fará por meio de mais uma camada de autoengano.

Consciência supõe conhecer a si mesmo: a jornada de vida até aqui, seus impactos e os comportamentos consequentes. Supõe compreender a si mesmo e as respectivas razões de ser e de conviver.

Muita da informação necessária a esse processo de reconhecimento não está disponível para acesso rápido e imediato na memória explícita. Assim, a disposição para buscá-la precisa se aliar ao risco imponderável das respostas inesperadas, que estão em cantos desconhecidos.

O cuidado de observar a nós mesmos pode se transpor para o olhar cuidadoso às outras pessoas, validando suas histórias e, principalmente, ouvindo-as. Acho que por aqui transita o mistério do vínculo entre humanos, tema que tem habitado meu condomínio mental nestes dias.

É impressionante o momento em que o campo relacional entre duas pessoas se ilumina com a compreensão: o tradutor de significados presente, mediando o encontro, e a atenção focada de cada um, validando e reconhecendo o outro. O diálogo flui, sem pressa e sem a abrasão da competição ou da comparação; as pessoas vivenciam nesses momentos a doce delícia da complementaridade.

É natural pensar na miséria dos campos relacionais que são palcos de violências de todas as naturezas, da mentira deslavada à violência física, passando por cada uma das estações do horror dos jogos psicológicos ou de poder que ocupam o espaço gerado pela ignorância.

O pavor que sinto ao ver ou saber de situações assim é tão intenso quanto o prazer de participar da fluidez entre pessoas ou de vê-la acontecer. Independentemente dos propósitos que movem as pessoas em campos relacionais abrasivos, é como se estivessem em completa ausência de luz ao viver uma das mais íntimas atividades humanas, que é o conflito.

Ver pessoas escolhidas para cuidar dos interesses públicos usando a violência como método, como estratégia, como modo de vida, é apavorante. Esperava-se que debatessem (ainda que com vigor) o interesse coletivo, o bem-estar, o sobreviver cidadão.

O digladiar deselegante e estéril inflama o tecido da convivência e (pior pesadelo) pessoas, perdidas em suas próprias sombras, sentem-se representadas e autorizadas pela violência pública. É curioso.

Ao buscar vencer o outro, a pessoa perde o controle de si mesma e se entrega, passando a mãos (às vezes estranhas) o controle de si. Então não vê, não nota, não qualifica. Pelos relacionamentos abrasivos, a solidão passa a ser sua companhia.

De um lado, o vínculo; do outro, o conflito. Entre os dois, miríades de coreografias do conviver, cada uma delas uma tentativa de driblar a solidão. Para quem quer aprender ao viver, são oportunidades preciosas de valorizar a caminhada. E de procurar e nutrir vínculos.

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