Lab Educação 2050

Repertórios amplos contra mentalidades encolhidas: pensar exige conhecimento

Pensar com lucidez depende de repertório; censurar livros restringe a consciência crítica de todos.

Uma importante dádiva a entregar nas mãos dos nossos filhos é a capacidade de pensar. Talvez menor do que o amor incondicional, mas quem ama incondicionalmente estimulará o pensamento do outro. Quem ama não teme partilhar a visão da realidade do outro, nem impedirá que o outro voe por horizontes largos e iluminados.

Pensar supõe examinar possibilidades, percepções e pontos de vista e tomar decisões. Logo, esse pensamento que operacionaliza a vida, aprendido pela criança nos seus diferentes relacionamentos, pode ser a fronteira entre viver lucidamente ou não. Pensamentos que brotam de quadros de referência encolhidos e paralisados reproduzirão mentalidades encolhidas e paralisadas.

Os diálogos sintonizados, equilibrados e mediados pelo profundo respeito (entrega sublime do amor incondicional) vão apresentando à criança uma jornada, ou várias, rumo a diferentes horizontes, assim como os instrumentos de que essa pessoa em andamento precisará para desvendar caminhos e chegadas.

Acontece que o pensamento descontaminado, que leva à lucidez, depende de repertórios. Construir repertórios, item fundamental na expansão e na descontaminação do quadro de referência, exige a aquisição de conhecimentos, de diferentes origens, que permitam expansão. Essa aquisição se dá nos diálogos com pessoas e pode ser mediada por livros, teatro, cinema, música e programas de aprendizado.

Sintonizados com o andamento do desenvolvimento da pessoa, o mundo e seus personagens podem ser apresentados e, quanto mais ampla for a visão do anfitrião desse momento especial, mais relevantes e potentes serão os repertórios da criança, do jovem, do adulto emergente e do adulto maduro. Podemos nos manter em permanente movimento de expansão e evolução. Podemos e devemos, pois quanto mais desenvolvido for quem ensina, mais desenvolvimento facilitará em quem aprende.

O medo, escondido nas camadas cruéis do preconceito, restringe essa aquisição de repertório, e brasileiros, em sua sombra irrefletida, se movimentam para editar uma versão confusa do Index.

O Index Librorum Prohibitorum (Índice de Livros Proibidos) original foi lançado em 1559 pelo papa Paulo IV e abolido pelo papa Paulo VI em 1966. Tirava de circulação obras consideradas ameaçadoras. A gestão da lista cabia ao Santo Ofício, a Inquisição, que semeava terror e disseminava trevas na mais profunda acepção da palavra. Da última versão do Index, de 1948, constavam 4 mil títulos. Entre os proibidos havia cientistas, pensadores, escritores e poetas, alguns bem conhecidos: Galileu Galilei, Copérnico, Maquiavel, Espinosa, Pascal, Descartes, Voltaire, Victor Hugo, Jean-Paul Sartre. Não fosse a forte resistência que fez circular muitas dessas obras clandestinamente, boa parte do conhecimento que embasa a ciência de hoje estaria trancada dentro das belas paredes do Vaticano.

E eis que aqui no nosso país, que precisa tanto de lucidez, que necessita urgentemente de expansão do quadro de referência, de consciência, de educação e de bons processos decisórios, pessoas comuns vestem a túnica dos inquisidores e arremessam na fogueira uma obra brasileira.

O avesso da pele, de Jeferson Tenório, lança luz sobre o racismo por meio de cenas reais, em uma prosa bem construída, que honra o nosso idioma e o contexto histórico do relato. É quase um compêndio, pois permite compreender, passo a passo, essa nódoa horrorosa que ainda corrói o nosso estrato social. Foi considerado perigoso por trazer à tona o racismo, o sistema educacional falido e a complicada relação entre pais e filhos. Vida real.

As pessoas que adotam essa moda do século 16 certamente não aprenderam a pensar e estão presas a um quadro de referência estreito, escuro, pequeno e medroso; treinadas para ver demônios, identificam-nos até nas asas dos anjos.

Meu falecido pai dizia de vez em quando: “Pensar dói”. E dói mesmo. Acontece que o não pensar não dói, mas provoca danos extensos nas pessoas e nos sistemas. Nossas crianças, jovens, adultos emergentes e adultos maduros precisam olhar para além. É urgente expandir consciência e horizontes! É urgente ativar os sinais respeitosos do amor incondicional e inequívoco.

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