Lab Educação 2050

Emoções reprimidas desde a infância: por que nomear o que sentimos nos protege

Repressão emocional desde a infância pode levar a relacionamentos tóxicos e a problemas de saúde.

Falar de sentimento e emoção pode ser muito fácil e natural para algumas pessoas, mas, para outras, pode ser que isso não faça sentido.

A emoção acontece no palco do nosso corpo, queiramos ou não. Diante de um estímulo emocionalmente competente, o corpo reage fisiologicamente, provocando mudanças como aceleração dos batimentos cardíacos, sudorese, dificuldade de respirar e contração ou relaxamento da musculatura, além de alterações no funcionamento do intestino e do rim, entre outras. Essas mudanças ocorrem porque o corpo entra em estado de ataque, fuga ou paralisia para “combater” um possível invasor, uma ameaça.

Prestar atenção e reconhecer essas alterações físicas é um primeiro passo muito importante: isso nos deixa atentos às mudanças ocorridas e nos prepara para direcionar a atenção a qual foi o estímulo (interno ou externo) que provocou determinada reação.

Identificadas as mudanças físicas e reconhecido o estímulo, teremos condições de dar nome ao que sentimos e de tomar providências de autocuidado e proteção diante do ocorrido.

Porém, por vezes, não temos permissão para sentir determinadas emoções ou para entrar em contato com sentimentos e expressá-los em geral.

Frases como “engole esse choro”, “brigar é feio”, “não discuta comigo”, “comemore mais baixo”, “tua alegria está atrapalhando”, “para de ser medroso” e “não foi nada” fazem com que entendamos que o que estamos sentindo naquele momento não é importante, ou não pode ser sentido ou expresso.

Quando não podemos sentir alguma emoção, como raiva, alegria, tristeza ou medo, ou expressar afeto, escolhemos outra para expressar no lugar, alguma que, naquele ambiente ou relacionamento, seja permitida. Em vez de raiva, sinto e expresso tristeza (raiva é feio, tristeza pode ser sentida). Em vez de alegria, vem a culpa ou o medo.

Esse aprendizado começa na infância, no relacionamento com as pessoas responsáveis por atender às nossas necessidades básicas de sobrevivência (físicas e emocionais), e nos acompanha pelo resto da vida, se nada for feito no meio do caminho.

E, se não sabemos reconhecer o que estamos sentindo efetivamente ou se damos o nome errado, nos comportaremos de um modo que não atenderá à nossa necessidade principal, e isso pode nos levar a diversos relacionamentos tóxicos.

Suprimir a emoção pode ser tão danoso quanto não conseguir nomeá-la e expressá-la. Se não damos vazão ao que sentimos, nosso corpo vai “explodir” de alguma maneira, como uma panela de pressão. A panela de pressão vedada precisa de uma válvula de escape: se o ar não sai, em algum momento ela explode. O mesmo ocorre com o nosso corpo. Sem o escape adequado da emoção, ele acumula mudanças fisiológicas que podem contribuir para problemas como crise de asma, insônia, alergias de pele, AVC, infarto, problemas gastrointestinais e renais, entre tantas outras possibilidades.

Falar de emoção, sentir o que sentimos, pode ser ameaçador ou nos dar a sensação de que não saímos do lugar, de um atraso de vida. Mas calibrar as emoções e adequar uma ação de autocuidado pode fazer a diferença na nossa saúde física e emocional e no bem viver conosco e com as pessoas ao nosso redor.

Tem curiosidade sobre o tema? Antonio Damasio, Eric Berne, Fanita English, Claude Steiner, Richard Erskine e Marilyn Zalcman são autores que admiro e que falam com bastante consistência sobre os assuntos aqui abordados.

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