Lab Educação 2050

Liderança tóxica: a cena em Congonhas que revela as duas faces de um gestor

No aeroporto, um gestor elogia a equipe em áudios e, logo depois, agride a companheira com o bebê.

Aeroporto cheio, no meio da tarde em São Paulo. Em Congonhas, o “andar de baixo” é bastante distinto do “andar de cima”, do espaço propriamente dito à disponibilidade de cadeiras e cafeterias (o lenitivo maior dos viajantes cansados). Barulhos, pessoas inquietas, filas, correrias, chamados aqui e acolá, alguns simultâneos: uma espécie sofisticada de antessala do inferno.

Com meu livro na mão, corri o olho para descobrir um cantinho onde esperar. Estava bem contente, pois, graças a um atendimento muito gentil, havia conseguido antecipar meu voo. Alma leve e ouvidos protegidos por música, fui à caça de uma cadeira... Quase apostei que conseguiria. O dia caminhava de modo especialmente fluido, e a mentora que habita minha alma estava nutrida pelos diálogos com pessoas sensacionais com as quais interagi nos últimos dias.

Como adivinhado, lá estava uma cadeira, quase escondida, no lugar do meio em uma das duas longarinas dispostas frente a frente.

Assim que me acomodei, uma voz alta atravessou a proteção do meu fone de ouvido. Curiosa como sempre, pausei Piazzolla para acompanhar a fala. Era um gestor gravando mensagens de estímulo para pessoas da sua equipe. Gentil, relatava suas observações sobre algum projeto que, infelizmente, não consegui identificar. A cada fala, validava a ação do subordinado e qualificava suas ações.

E seguia, gravação após gravação, nesse roteiro de gestor desenvolvedor. Eu estava encantada! Claro que, se fossem presenciais, essas falas — um reconhecimento potente — completariam o que entendo como muito relevante nos relacionamentos em equipes de alto desempenho. Celebrei sozinha e estive bem perto de externalizar meu reconhecimento ao animado senhor sentado à minha direita.

Meu olhar foi atraído por uma moça bonita empurrando um carrinho de bebê. Sem sorriso, com um ar cansado, ela se aproximou bem devagar do grupo espremido do qual eu fazia parte. Parou, olhou, e foi aí que eu quase morri de susto.

O educado e desenvolvedor gestor gritou um palavrão (dos grandes mesmo!) e mandou que ela saísse de perto: “Veja bem, estou trabalhando, você só me atrapalha!”, continuou, gesticulando agressivamente.

A moça recuou, saiu de perto, sumiu. Com o coração quase parando, troquei olhares com os outros quatro senhores, tão chocados quanto eu. Em seguida, o colérico retomou sua face gentil e seguiu gravando para as pessoas da equipe.

Precisei sair de perto. O médico e o monstro em versão corporativa: aquele senhor esgotou toda a sua capacidade de gentileza com a equipe. Para a companheira e o bebezinho sobrou a fuligem, a sombra, a violência.

Imaginei que, na empresa, ele talvez também assuma, de vez em quando, essa face assustadora. Uma gramática de comunicação que atemoriza. Que pressiona. Que humilha.

Naquela tarde em Congonhas, ele agrediu por atacado, e todos nós, daquele pequeno grupo, fomos afetados pela violência descabida e absurda. A bioquímica do meu cérebro, tão calibrada até momentos antes, foi inundada pelo ciclo do estresse. Andei um pouco para serenar, respirei um pouquinho aquele oxigênio cheio de fumaça. Fui para a fila, embarquei e viajei muito pensativa.

Cheguei em casa acompanhada de silenciosos desejos. Viver nosso potencial significa dar a cada pedaço da nossa vida (nós inclusive) atenção e cuidado generosos. Que a moça triste encontre coragem para se livrar da toxicidade e proteger seu bebezinho. Que este atormentado senhor consiga se perceber e pedir ajuda, para que possa conviver amorosamente com o seu bebezinho.

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