Contratos explícitos na família: falar em vez de adivinhar o que o outro pensa
O campo comum de convivência contratado muda as relações: dizer em vez de adivinhar.
Nos últimos meses, tenho refletido com frequência sobre os contratos familiares. O contrato, na perspectiva da análise transacional conceituada pelo psiquiatra Eric Berne, é um acordo bilateral explícito. Bilateral, pois pressupõe a participação ativa de ambos os envolvidos. E explícito, pois todos os aspectos precisam ser falados e estar claros para as duas pessoas que fazem parte do relacionamento.
Na Mentoria Integrativa Relacional, desenvolvemos o conceito do Campo Comum de Convivência Contratado, no qual o contrato é um dos pilares de nutrição desse campo relacional. Quando explicitamos ao outro expectativas, necessidades, medos e fantasias, e a gramática com que entendemos o que estamos comunicando no relacionamento, a fluidez acontece. A possibilidade de nos sintonizarmos um com o outro é muito maior, abrindo espaço para a construção de um relacionamento de intimidade, no qual ambos podem ser eles mesmos, sem precisar “pisar em ovos”.
Porém, tenho observado nos relacionamentos familiares o quanto os diálogos ficam no campo da fantasia: no que eu acho que o outro está pensando, no que eu gostaria que o outro fizesse sem que eu precisasse expor, ou seja, na adivinhação. Considerando que somos seres únicos, com visão de mundo individual, quando mantenho a comunicação implícita, o outro agirá de acordo com as próprias expectativas e necessidades, e não necessariamente com o que de fato preciso.
Quando nos relacionamos, invariavelmente criamos um campo comum de convivência. Ou seja, nossos comportamentos nos contam a gramática da nossa relação e o que podemos esperar uns dos outros. Mas, de novo, muitas vezes isso fica no campo da imaginação e, com isso, vem a frustração de o outro não ser ou não se comportar de acordo com aquilo que imagino dele.
Por exemplo, um pai e uma mãe que fazem tudo pelos filhos a vida toda começam a se incomodar com o fato de o filho precisar crescer, andar com as próprias pernas, não ser tão dependente deles. A partir desse desconforto, deixam de fazer as coisas pelo filho e o deixam andar com as próprias pernas, para que ele cresça e desenvolva a autonomia. Certamente, essa expectativa será frustrada. O filho fica confuso, se sente perdido, não sabe o que está acontecendo e pode, inclusive, interpretar: eles não me amam mais, eu não tenho mais espaço nesta família, eu não pertenço. E os pais interpretam: ele não está fazendo esforço nenhum e não quer crescer. Tudo isso está exclusivamente no campo da imaginação, e o que parecia ser uma saída extraordinária para apoiar o crescimento do filho se torna um conflito instalado e promove o distanciamento entre pais e filhos.
Vamos olhar esse mesmo exemplo sob outra perspectiva, do meu ponto de vista, mais eficaz. Eu entro em contato com o desconforto de ver meu filho dependendo de mim para muitas coisas e de não o ver crescendo com isso. Sento e converso com o meu filho, expondo o meu desconforto. Abro espaço para ele compartilhar a perspectiva dele sobre isso, e dialogamos juntos sobre as possíveis saídas para o problema, sobre comportamentos e alternativas que nós dois damos conta de colocar em prática e que contemplem as necessidades de ambos. Ao abrir espaço para o diálogo e trazer para a conversa as necessidades, fantasias, medos e expectativas, ninguém no relacionamento precisará adivinhar. Poderemos chegar a saídas que contemplem os dois, e isso pode fazer a diferença. Em vez de enxergar os pais como uma ameaça, o filho passa a vê-los como parceiros na jornada de desenvolvimento. Abre-se espaço para o diálogo sobre as coisas boas e as não tão boas. Eu posso ser eu mesma na relação, e o outro também. Esse passa a ser um relacionamento seguro para nós.
Essa perspectiva é fácil? Claro que não: pressupõe que eu me abra ao outro, fale de mim, me exponha, e isso me deixa em uma situação de vulnerabilidade. Mas isso pode nos fortalecer, pode economizar tempo de vida, e podemos aproveitar mais a dádiva da companhia das pessoas importantes da nossa vida. Relacionamentos são construídos, e juntos podemos estabelecer espaços seguros, nos quais podemos ser nós mesmos, nos quais nossas fantasias, medos e necessidades são acolhidos pelo outro como genuínos e importantes.
Escrevo hoje impactada pela escrita dos meus colegas colunistas. Sugiro que você mergulhe nos lindos textos construídos por eles. Vejo que, juntos, estamos mergulhando cada vez mais no desafio de sermos humanos e relacionais.












Comentários
A conversa acontece no fórum do Lab Digital 2050. Leia os comentários abaixo e clique em “Responder” para participar.