Lab Educação 2050

Da chegada à despedida: as fases de um grupo e como lidar com o fim do convívio

Do medo de não ser aceito à raiva diante do fim, os grupos humanos vivem fases previsíveis.

Dizer olá e dizer adeus são dois momentos delicados e complexos para nós, seres humanos. Quando a convivência se dá em grupo, podemos multiplicar essa complexidade pelo número de pessoas presentes.

Chegamos a qualquer grupo com nossa mochila de vida cheia de experiências, fantasias e expectativas. Olhamos à nossa volta, buscando entender quem é quem, com o cérebro fazendo conexões, checagens e combinações frenéticas. Aspectos de que nos lembramos e outros de que não nos lembramos vão costurando uma ideia do que será nossa vida junto com aquelas pessoas. As pessoas ainda serão percebidas de modo indeterminado, mais conectadas às lembranças de quem percebe do que à realidade.

Neste momento inicial, paira na cabeça de quem chega (consciente ou inconscientemente) uma grande dúvida: serei ou não aceita? Na cabeça de quem recebe a recém-chegada, transita, rapidamente ou não, o medo dos impactos que ela possa gerar no equilíbrio social do grupo.

Um movimento especial será relevante para quem chega: identificar o líder do grupo. Ser aceito por esse líder é missão primária de “sobrevivência”.

Quando a convivência começa a acontecer, a realidade vai aos poucos sobrepujando a fantasia, e a coreografia de relacionamentos do grupo se estabiliza a partir de contratos explícitos ou entendimentos tácitos.

Para cada pessoa do grupo, as demais já serão percebidas individualmente. O medo de não pertencer estará mais ou menos debelado, e todos se sentem confortáveis para relaxar um pouco a ansiedade.

Contudo, qualquer pequena alteração lembra a todos o risco de ser ou não parte. Por um tempo reduzido, as dúvidas voltam a fazer parte do grupo, que se estabiliza cada vez mais rapidamente a cada impacto.

A estabilização não é uma linha reta; é mais uma onda que navega por altos e baixos. É uma estabilidade dinâmica: mantemo-nos juntos e separados, simultaneamente. Aos poucos, boa parte das pessoas do grupo vai conhecendo melhor cada uma das outras, estabelecendo relacionamentos mais próximos, mais livres, mais espontâneos. Isso não acontece com todos os grupos, mas, quando acontece, o grupo será forte e coeso e alcançará seus objetivos de modo mais fluido e tranquilo.

A vontade é que o grupo se mantenha. As pessoas farão, individualmente, movimentos para garantir a existência do grupo: gestos de afeto e cuidado.

Todos sentem a delícia da convivência que inclui ser entendido, validado, valorizado, reconhecido. Cada pessoa se sente amada pelo líder, e o líder já não detém o pseudopoder: é “um de nós”. Estaremos mais juntos que separados e seremos capazes de adiar o atendimento de nossas necessidades individuais pela sobrevivência do grupo e em nome dela. São momentos que serão guardados na memória como “tempo bom”.

Grupos que evoluem assim experimentam, genuinamente, relacionamentos lastreados pelo amor inequívoco. Os diálogos são sintonizados, e há curiosidade para entender o outro, seus pontos de vista, seu mundo.

Depois de viver essas etapas, alguns grupos precisam enfrentar o luto da despedida. São grupos com tempo de existência limitado, um prazo que todos conhecem. Contudo, na exata medida em que a intimidade se instala, a possibilidade do fim é desqualificada. E ele chega. Meio sorrateiro, sem grandes ruídos. É hora do grande susto. Parece quase uma injustiça. “Não é possível que tenhamos de abrir mão dessa convivência preciosa!”.

A inquietação se instala, e as pessoas expressam raiva, tristeza ou inadequação. É natural. Sem um destino claro para a exasperação, as pessoas em volta serão alvo de iscas e alfinetadas. Parece tão estranha a raiva associada às despedidas, não é? É difícil de assumir e aparentemente pouco aceita. Mas lá estará, no subterrâneo das despedidas. Não pode fazer morada nem dominar território, porque a raiva pode extrair a doçura das boas lembranças. É hora de lembrar as razões pelas quais o bem-querer existiu até aqui e de começar a ritualizar o adeus.

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