Lab Educação 2050

Autoestima na infância: como pais ensinam limites e amor sem condição aos filhos

Limites amorosos e amor sem condição ajudam a criança a construir a própria autoestima.

Quando penso no melhor que podemos dar aos nossos filhos, logo me vem o pensamento: uma autoestima fortalecida. Isso não significa encaminhá-los a um caminho narcísico, de se perceberem melhores que todas as outras pessoas. Significa fundamentos e recursos internos que lhes permitam navegar pelos altos e baixos da existência, dando conta dos diferentes desafios.

A autoestima é construída e nutrida a partir de um delicado equilíbrio entre estrutura e nutrição emocional, o que supõe uma atenção dividida entre a gestão de limites e o fornecimento de estímulos que atendam às necessidades relacionais dos filhos.

O bebezinho, quando chega a uma comunidade familiar, é único em suas características. Ao se relacionar com as pessoas, por meio de suas experiências, ele constrói identidade e autoestima.

Aos pais cabe a tarefa nobre de cuidar de si e se fortalecer, para que tenham condições de fornecer ambiente e comportamentos que facilitem o processo. Muitas vezes, não recebemos os recursos necessários para fazê-lo. O bonito da existência é que o que não recebemos na nossa própria experiência podemos aprender.

Autoestima é um fenômeno interno, construído aos poucos, que não depende da percepção externa nem da comparação com outras pessoas. Ou seja, quanto mais robusta a autoestima, menos vulnerável a pessoa será aos impactos de outras pessoas e de eventos ao redor de si.

Respeitar a si mesmo, dentro do escopo de uma autoestima fortalecida, propicia uma visão nivelada das outras pessoas, dentro de uma ética de simetria. A fragilização da autoestima expõe a pessoa a julgamentos e comparações que podem excluí-la de possibilidades e alternativas de realização de bem-estar.

A construção da autoestima se dá na convivência com pessoas que permitam que nosso aprendizado aconteça, que validem nossa capacidade crescente em cada uma de suas fases e que nos façam acreditar no quanto somos dignos do amor inequívoco.

Preciso esclarecer que o amor inequívoco não é um aspecto do amor romântico. O amor inequívoco parte da decisão deliberada de amar sem nenhuma condição. Perceber-se digno desse amor é um ingrediente insubstituível para a constituição e a manutenção da autoestima.

Da consolidação da autoestima faz parte aprender a reconhecer as mensagens construtivas e destrutivas, de tal maneira que possamos, ao distingui-las, escolher qual vamos internalizar. Do fortalecimento da autoestima faz parte vivenciar as experiências e ter recursos emocionais e de pensamento para tomar decisões saudáveis. Da construção da autoestima e da autovalidação faz parte o equilíbrio entre reconhecimento e estímulo (necessidades relacionais básicas) e estrutura (clareza quanto a fronteiras e papéis).

Facilitar o processo de autovalidação nas crianças supõe um processo longo de amar e ensinar a elas habilidades e responsabilidades. Ao receberem limites amorosos, as crianças aprendem aos poucos a estabelecer os próprios limites e a se valorizar.

Muitas crianças não aprendem sobre fronteiras e limites quando convivem com adultos que as julgam ou criticam duramente os seus erros. Essas crianças nunca ouvirão nem verão o que fazer, como fazer, quando fazer e com quem fazer as tarefas rotineiras do viver. Ainda assim, os adultos esperam que elas acertem e se adequem com perfeição.

Podemos dialogar a respeito; é um tema que me mobiliza. Na minha ação profissional de desenvolvimento de pessoas, encontro em corpos de adultos as crianças que não aprenderam a autoestima nas suas diferentes linguagens. Mas é um aprendizado que pode ser retomado a qualquer tempo. Essa é uma luz que me estimula. Por outro lado, muito tempo e saúde são perdidos em inúmeras tentativas de acertar. O custo é alto, medido em quantidade de vida (não qualidade).

Uma criança amada assertivamente, que receba palavras, gestos e cuidado — nutrição emocional — saberá amar a si mesma.

Uma criança que aprenda limites, habilidades e padrões — estrutura — terá condições de desenvolver o senso de si e do outro, aprenderá e introjetará valores e ética e poderá assumir a responsabilidade por si mesma.

Nutrição e estrutura são parceiras nesse projeto de vida. A presença de pelo menos uma delas oferece condições para o funcionamento da criança, mesmo que sem alegria e leveza (quando falta a nutrição) e sem força e segurança (quando falta a estrutura).

Por onde começar?

Pais com autoestima fortalecida sabem nutrir e estruturar o caminho de seus filhos. Quando os cuidadores não têm autoestima fortalecida, é hora de assumir a possibilidade de aprender a cuidar de si.

No caminho, ao dialogar com os filhos, temos a possibilidade de também aprender. Não é uma tarefa simples, nem uma tarefa que se faça sozinho, nem uma tarefa a executar como parâmetro de sucesso. Não são filhos perfeitos que precisamos almejar, e sim filhos que deem conta, do jeito deles, dos desafios apresentados pela experiência de viver, com leveza e algum prazer, quando possível.

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