Encontro, desencontro e não encontro: a presença verdadeira cura as relações
Encontros verdadeiros constroem pontes de afeto e compreensão; os desencontros geram violência.
A reflexão que tem ocupado meu condomínio mental neste domingo diz respeito aos tantos desencontros e suas consequências, e às variadas possibilidades dos encontros. Participo de muitos e observo outros encontros e desencontros.
Entendo por encontro o momento em que duas ou mais pessoas, que compartilham o mesmo espaço-tempo, convivem sem condições prévias, aceitam o outro na sua especial singularidade, acolhem discordâncias e concordâncias, suspendem deliberadamente o julgamento, em um contrato explícito de fluidez na comunicação, e valorizam de forma obstinada a própria essência e a do outro.
Penso no encontro como uma dimensão sintonizada de uma pessoa que verdadeiramente percebe a outra, manifesta seu interesse pela presença do outro e se abre para ver, escutar e sentir o universo do outro.
Quando duas pessoas estão no mesmo local, nem sempre o estar junto é um encontro. Brincando com a origem da palavra, que se atenuou ao longo dos séculos (no latim, incontrare significava o encontro com um adversário, o estar contra, do lado oposto), proponho olhar para três variedades: o não encontro, o desencontro e o encontro.
Muitos podem estar no mesmo ambiente, ao mesmo tempo, e nunca se encontrar, mesmo que eventualmente se esbarrem aqui ou acolá. Nenhum qualifica a presença do outro. Mesmo escutando, essas pessoas não decodificam as falas e outras comunicações, que entram no sistema como um ruído do ambiente. O não encontro é tremendamente assustador. Como em uma novela de ficção científica, a invisibilidade social é gelada para quem assiste e quase não é percebida pelos protagonistas do não encontro.
O desencontro é mais confuso: não há escuta, e as falas barulhentas escalam até gritos e rupturas. É agoniante para quem assiste. O bulício produzido pelas crenças congeladas e pelas “certezas absolutas” não permite sequer reconhecer a presença do outro, ou dos outros. Não há diálogos; há, frequentemente, monólogos berrados. Os desencontros entre pessoas se avolumam e progridem a ponto de produzir divisão e violência. Os desencontros entre grupos, além dessas divisões e violências que os caracterizam, causam desequilíbrios sociais. São as guerras, os conflitos, as fragmentações de toda sorte; as pessoalidades se desintegram.
Muitas vezes sinto o desejo de convidar aqueles que estão desencontrados a respirar fundo, a parar por um momento, a concentrar-se por um minuto, a olhar o outro e, verdadeiramente, a abrir-se para o encontro. E sei que não é tão fácil.
E o encontro? Não tem importância o tempo do encontro, sua duração. Importa sua intensidade, importa se houve uma qualidade incontestável de presença. Não importa o lugar onde o encontro ocorre; importa que as pessoas estejam ali verdadeiramente, presentes, atentas, sintonizadas umas com as outras. Não importa quem chegou primeiro, quem estava há mais tempo e quem não veio. Importa estar juntos, com conexão empática, sem pensar em retribuição, oferecendo afeto e reconhecimento sem preço nem condição.
É quando amigos, parceiros, amores e família não são “meus” nem “seus”. Essas pessoas pertencem a elas mesmas e, como seres humanos livres, podem fazer sua própria e independente trajetória. Ainda assim, podem se disponibilizar para o encontro.
Há caminhadas que duram anos e não se convertem em encontros. Há famílias que habitam o mesmo teto e não se encontram. Há parceiros profissionais que laboram horas e horas, anos e anos, lado a lado, e não se encontram. Há amigos que se divertem juntos e não se encontram. Há quem diga “eu te amo” e não se abra para o encontro.
São preciosos os verdadeiros encontros. Parece mágica. Uma ponte se estabelece, porque o afeto desprendido a constrói. A compreensão se solidifica, pois há a aceitação que acolhe. A fluidez se instala, porque há o reconhecimento que aquece. A presença qualificada se faz sentir, porque há o prazer explícito em estar juntos.
Abençoo aqueles que me possibilitaram distinguir o verdadeiro encontro do desencontro e do não encontro. Abençoo aqueles que me mostraram o poder curativo do encontro. Abençoo aqueles que, sem me pedir nada, estão ao meu lado. Não preciso me adaptar, não preciso me calar, não preciso me submeter a quaisquer condições, não preciso abrir mão de meus valores ou pensamentos. É só isso, um encontro, e nada mais.












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