Lab Educação 2050

Avanço de sistemas inteligentes desafia humanismo a proteger a autonomia

Texto defende que decisões mediadas por algoritmos preservem a dignidade de cada pessoa.

A relação entre humanismo, inteligência e fascismo é um dos temas centrais da filosofia política e da história do século 20. Enquanto o humanismo põe o ser humano, sua dignidade e sua capacidade racional no centro da vida social, o fascismo surge historicamente como negação desses valores e, com frequência, subverte a inteligência para fins de dominação, controle e destruição. O humanismo parte da premissa de que todo ser humano tem dignidade intrínseca, é capaz de livre-arbítrio e tem o direito de buscar a própria realização por meio da razão, da liberdade e da empatia. O fascismo opera pela lógica inversa. Um de seus traços centrais é o coletivismo radical: o indivíduo não tem valor em si mesmo, e sua existência só se justifica quando serve ao Estado, à nação, à raça ou à ideologia dominante, elevados à condição de objeto de culto (PAXTON, 2007; GENTILE, 2013).

Outro traço inquietante do fascismo é seu caráter anti-humanista. O movimento rejeita a universalidade dos direitos humanos e a substitui por uma visão hierárquica da sociedade, baseada na força, na exclusão e na desumanização do outro (ARENDT, 2013). Nesse contexto, as diferenças deixam de ser reconhecidas como expressão da riqueza humana e passam a ser vistas como ameaças a combater.

Embora costume se apresentar como inimigo do pensamento, o fascismo não rejeita toda forma de inteligência. Valoriza a inteligência instrumental e técnica, desde que posta a serviço de seus objetivos. Engenheiros, burocratas, médicos e juristas empregaram com eficiência sua capacidade intelectual para organizar sistemas de propaganda, economias de guerra e até a logística do extermínio. Os filósofos alemães Theodor W. Adorno e Max Horkheimer analisaram esse fenômeno ao mostrar como a razão, reduzida a instrumento de cálculo e domínio, pode converter-se no contrário do esclarecimento que prometia (ADORNO; HORKHEIMER, 1985). Hannah Arendt, ao acompanhar o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann em Jerusalém, chamou a atenção para o que denominou “banalidade do mal”: a capacidade de indivíduos comuns colaborarem com atrocidades sem refletir sobre os próprios atos. O que caracterizava Eichmann, segundo ela, não era a perversidade, mas a incapacidade de pensar (ARENDT, 1999).

Ao exaltar a ação irrefletida, o instinto e a obediência cega, o fascismo procura enfraquecer justamente o que o ameaça: o pensamento crítico (PAXTON, 2007). Dúvida, reflexão e debate passam a ser vistos como sinais de fraqueza ou traição. A história registra a censura, a perseguição a professores, jornalistas e cientistas e a destruição simbólica representada pela queima de livros, como a promovida por estudantes nazistas em Berlim, em maio de 1933.

Para os pensadores humanistas, porém, a verdadeira inteligência não consiste só na capacidade de resolver problemas ou desenvolver tecnologias; envolve também a faculdade crítica de avaliar as consequências éticas das ações humanas. Diante da ascensão do fascismo na Europa e de seus desdobramentos, intelectuais como Thomas Mann, Albert Camus e Hannah Arendt sustentaram que os regimes totalitários prosperam quando a inteligência se separa da empatia, da responsabilidade e da consciência moral. Camus, nas cartas que escreveu durante a ocupação da França, opõe à lógica de seu interlocutor nazista, que tudo justificava em nome da grandeza da nação, a fidelidade à justiça (CAMUS, 2016); mais tarde, examinaria como as ideologias do século transformaram o assassinato em conclusão lógica de um raciocínio (CAMUS, 2017). Para esses autores, a defesa do humanismo exige o exercício permanente do pensamento independente diante dos dogmas coletivos.

Essa reflexão continua atual. Os desafios contemporâneos do humanismo dizem respeito à preservação da dignidade humana em meio a transformações sem precedentes. O acesso a tecnologias cada vez mais avançadas pode deslumbrar a imaginação e, paradoxalmente, afastar-nos de nós mesmos. Adorno (1995) já identificava na relação fetichista com a técnica, tratada como fim em si mesma, um traço da consciência coisificada que tornou Auschwitz possível. Por isso, o humanismo precisa ampliar sua missão histórica. Não basta defender a natureza humana; é preciso também proteger os valores que tornam significativa a experiência humana. Em um cenário de promessas sedutoras de automação, substituição do pensamento e integração entre cérebro e máquina, o desafio humanista será afirmar que a tecnologia deve expandir as capacidades humanas, e não reduzir sua autonomia.

Outro desafio fundamental é construir princípios éticos capazes de orientar a convivência entre a diversidade humana e as novas formas de inteligência e tecnologia. Respeito, responsabilidade, consciência e reciprocidade precisarão ocupar posição central nessa nova arquitetura moral. À medida que decisões sobre educação, saúde, justiça e trabalho passarem a ser mediadas por sistemas inteligentes, o humanismo deverá reafirmar a singularidade da pessoa e impedir que indivíduos sejam reduzidos a dados, estatísticas ou perfis preditivos. A pessoa é sempre mais complexa do que a definição de qualquer algoritmo.

A própria liberdade humana poderá ser ameaçada por tecnologias sofisticadas de monitoramento, persuasão e influência comportamental. Diante disso, o ideal humanista de autonomia exigirá novos modelos educacionais, voltados ao desenvolvimento do pensamento crítico, da consciência ética e do autoconhecimento. Adorno (1995) já via na autonomia, entendida como capacidade de reflexão e autodeterminação, a única força real contra a repetição de Auschwitz. Sem essas capacidades, indivíduos e sociedades ficam mais vulneráveis a formas renovadas de manipulação, inclusive àquelas que reproduzem padrões fascistas por meio das redes globais de comunicação.

Ao mesmo tempo, o isolamento emocional poderá crescer apesar da hiperconectividade. Arendt (2013) identificou na solidão, a experiência de não pertencer ao mundo, o terreno em que o domínio totalitário se enraíza. Resgatar a empatia, o encontro genuíno e os vínculos significativos continuará sendo uma das tarefas centrais do humanismo. Nesse contexto, será fundamental reafirmar o valor intrínseco da diversidade e da singularidade de cada pessoa. Continuarão igualmente essenciais as grandes perguntas existenciais que acompanham a humanidade desde suas origens: Quem sou? Para que vivo? O que posso oferecer de relevante ao mundo? O que significa uma vida plena?

O humanismo também será desafiado a ampliar seu horizonte temporal e a reconhecer não só os direitos de quem vive no presente, mas também as responsabilidades para com as gerações futuras e os ecossistemas dos quais depende a continuidade da vida. Por fim, mesmo diante de avanços científicos extraordinários, continuarão em aberto as questões fundamentais ligadas ao amor, ao sofrimento, à morte, ao propósito e à transcendência. O desafio humanista será dialogar com essas dimensões sem sucumbir ao reducionismo tecnicista nem ao obscurantismo anticientífico.

A tensão entre humanismo e fascismo é, afinal, uma tensão entre duas concepções opostas de humanidade. De um lado, a crença na dignidade, na liberdade, na diversidade e na responsabilidade moral. De outro, a submissão do indivíduo a projetos coletivos que sacrificam a pessoa em nome do poder. Em um mundo cada vez mais complexo e tecnologicamente sofisticado, defender o humanismo talvez seja menos preservar o passado do que construir conscientemente um futuro no qual a inteligência permaneça inseparável da ética, da empatia e do compromisso com a dignidade humana.

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