Falsa equivalência expõe armadilhas lógicas em discursos cotidianos
Da política às redes sociais, falácias alimentam desinformação e discursos polarizados

A obra do filósofo Schopenhauer, que analisa estratégias argumentativas, dialoga diretamente com a do psicólogo Claude Steiner sobre jogos de poder. Podemos dizer que a pessoa que deliberadamente usa jogos de poder para controlar os outros o faz por meio de falácias: ela provoca, manipula, utiliza premissas falsas e apela para a autoridade para sustentar um argumento. Essa conexão se torna clara ao analisarmos uma falácia específica que inspira este texto: a da falsa equivalência.
Trata-se de um erro de lógica que ocorre quando se comparam duas coisas como se fossem iguais apenas por compartilharem alguma característica, enquanto suas diferenças (não raro substanciais) são ignoradas. Ao tratar o que é desigual como se fosse igual com base em semelhança superficial, essa distorção serve como tática para invalidar argumentos.
Mas, afinal, o que é uma falácia? A palavra significa falsidade: qualquer enunciado ou raciocínio falso que simula a verdade. Embora seja um termo pouco comum, ele identifica comportamentos muito frequentes. A tentação é dizer que, hoje, a mentira e as falácias têm lugar garantido no panteão da glória. Contudo, afirmar isso seria uma imprecisão, pois o modo de alterar fatos e versões parece ser tão antigo quanto o próprio ser humano.
Origens do engano
Acredito que, por não aprender a fundamentar seus argumentos, o indivíduo busque, ao longo de seu desenvolvimento, recursos de sobrevivência onde o engano ou a manipulação se tornam alternativas. Em discussões familiares, por exemplo, alguém pode exagerar uma situação para convencer os demais. Já em debates políticos, candidatos podem distorcer dados para ganhar apoio.
Por outro lado, há pessoas que utilizam falácias de forma consciente e planejada. Nas redes sociais, notícias falsas são disseminadas deliberadamente para manipular opiniões. Entre um extremo e outro estão os crédulos: galhos frágeis sacudidos ao sabor de qualquer vento. Essas pessoas, ao aceitarem argumentos falaciosos sem questionar, tornam-se vulneráveis e acabam por contribuir para a propagação de equívocos.
Lições dos filósofos
Para dissecar essas estratégias, é fundamental recorrer a dois filósofos que as mapearam: Aristóteles e Schopenhauer.
Aristóteles, filósofo grego do século 4 a.C., foi pioneiro no estudo sistemático das falácias em sua obra Refutações Sofísticas. Ele apresenta as falácias formais, cuja estrutura lógica leva a uma conclusão falsa mesmo com premissas verdadeiras, e as informais, onde premissas falsas invalidam o argumento. Dentre as conceituadas por ele, estão:
- Apelo à autoridade: usa a reputação de uma figura para validar um argumento fora de sua área de especialidade.
- Apelo à piedade: utiliza a compaixão do interlocutor para que suas considerações sejam aceitas, mesmo que irrelevantes.
- Falácia da causa e efeito: assume uma relação causal apenas porque um evento acontece depois do outro, sem real conexão.
Schopenhauer, por sua vez, descreveu em A Arte de Ter Sempre Razão as táticas para vencer debates a qualquer custo. As mais conhecidas são:
- Ad hominem (ataque pessoal): ataca a pessoa em vez de seus argumentos.
- Ampliação indevida: exagera o argumento do outro até o absurdo para invalidá-lo.
- Falsa dicotomia: reduz as alternativas a apenas duas opções, ignorando outras possibilidades.
Impacto e a postura crítica
O uso frequente de falácias traz impactos sociais e éticos. A difusão de argumentos enganosos gera desinformação, polarização e conflitos, além de comprometer a honestidade e prejudicar a busca por soluções justas.
Ao compreender as falácias e seus efeitos, podemos desenvolver uma postura mais crítica diante dos debates que enfrentamos. Não precisamos de uma pesquisa ampla para encontrar exemplos atuais dessas estratégias de embasamento de mentiras.
Tenho como objetivos pessoais não cair em falácias, ter paciência para não intervir com esclarecimentos quando não for explicitamente convidada, e firmar um pacto comigo mesma de examinar a realidade de forma consciente, fortalecendo a análise com fundamentos sólidos.







