Reconhecer mensagens pode romper ciclos de violência e ampliar vínculos
Atenção às injunções ajuda a reconstruir pertencimento, competência e sentido nas relações

O que um adulto sente, pensa e a forma como se comunica e se relaciona são consequências diretas das influências que o marcam na infância. Pessoas e ambientes funcionam como vetores que moldam as respostas de uma criança em desenvolvimento diante dos desafios da própria sobrevivência. Seu repertório de apoio à tomada de decisão se forma e se consolida a partir dos modelos a sua volta, da observação da eficácia das ações do adulto e, finalmente, pelo teste na realidade.
Do ponto de vista infantil, até situações corriqueiras podem parecer imensas; muitas vezes, o entorno é verdadeiramente assustador. Os adultos responsáveis pelo cuidado da criança nem sempre são amorosos ou capazes de oferecer o amor incondicional fundamental para sua saúde psíquica. Em muitos casos, à escassez de afeto somam-se dificuldades de segurança material e social. A criança precisa aprender a lidar com esses fatores e encontra maneiras de fazê-lo. Nem sempre adequadas, suas estratégias de sobrevivência garantem que chegue à vida adulta.
O adulto que hoje cuida de uma criança também esteve exposto, em sua própria infância, a desafios maiores ou menores, mas muito semelhantes aos enfrentados pela criança sob sua responsabilidade. Poucos são os que crescem com exemplos saudáveis de parentalidade; poucos recebem o presente de uma orientação que estimula, reconhece e promove uma estrutura interna de segurança. Ao assumir a função parental, cada um faz o que pode com os recursos que reúne enquanto cresce. Raros são os seres humanos que causam danos deliberadamente; a maioria o faz por não saber, por não imaginar o impacto de suas palavras, atos e omissões no desenvolvimento dos filhos.
De onde vem
Algumas decisões de sobrevivência adotadas na infância se cristalizam em crenças. O pensamento passa a ser guiado por essas experiências, que por sua vez impulsionam comportamentos, relacionamentos e sentimentos. Mas adulto pode dedicar parte do seu tempo para “crescer de novo”.
Em um primoroso trabalho construído ao longo de décadas com famílias, pais e crianças, Jean Clarke e Connie Dawson apresentam estratégias e possibilidades fase a fase do desenvolvimento, o que permite a construção de sensos fortalecidos de identidade, competência, pertencimento, segurança, vínculo e sentido. John e Penny McNeel, ao trabalharem as mensagens de injunções, oferecem proposta semelhante de reconstrução desses sensos, a partir da conscientização das mensagens recebidas, seus impactos, as limitações instaladas e as liberações possíveis.
As mensagens de injunção são comunicações que bloqueiam, restringem, limitam e, às vezes, paralisam as possibilidades de evolução próspera da criança. Muitas vezes não são verdadeiras, mas a idade da criança e seu reduzido repertório de interpretação fazem com que se tornem base para decisões sobre si mesma, sobre o outro e sobre a realidade.
Palavras, atos e omissões
A gênese da violência acontece sob a pressão de diferentes fatores: contexto social e econômico — escassez e desigualdade; distúrbios comportamentais e afetivos enraizados na infância; relações desiguais de poder; normas culturais discriminatórias; e o ciclo de violência perpetuado. É irresponsável atribuir apenas às palavras, atos e omissões das figuras importantes da infância a autoria da perpetuação da violência como base da convivência.
Contudo, essas mensagens oriundas dos cuidadores são uma possível fonte da gênese da violência. Como vítimas ou testemunhas de comportamentos violentos, algumas crianças adotam a violência pois acreditam ser essa a via prioritária para gerir seus relacionamentos. A criança aprende tanto o comportamento quanto o pensamento associado à violência, que supõe a neutralização da empatia e da validação do outro como ser humano. Ao treinar a não percepção das próprias dores, medos e desesperos, a pessoa perde, aos poucos, a capacidade de qualificar o impacto de seu comportamento violento sobre os outros.
O assustador poder das mensagens e dos exemplos dos cuidadores evidencia a necessidade urgente de intervenção multifatorial e multidisciplinar. Um caminho para gerar novas decisões e liberar esses bloqueios é reconhecer, nomear e estruturar um percurso para a constituição de novas crenças — um processo não indolor, parte da cura do Sistema do Script.
Outro caminho é conscientizar quem exerce a parentalidade para que cuide das mensagens que direciona aos filhos, por meio de palavras, atos e omissões. Quem parentaliza precisa assumir sua responsabilidade diante do ser em desenvolvimento.
Abra bem a boca
A proposta deste texto é um exercício simples: pensar no que transmitir a uma criança, nos impactos causados pela comunicação de um adulto significativo e nas consequências futuras de falas inconsequentes e frequentes. Imagino que, ao pensar antes de falar, o adulto pode, ao cuidar da criança sob sua responsabilidade, cuidar também de sua própria criança interna. Para tanto, apresento algumas frases de um universo muito maior. Entre parênteses, após cada comunicação, estão citados alguns impactos potenciais no sistema de crenças e comportamento da criança.
- Deixe-me em paz!
Não se aproxime, não me incomode, você me atrapalha. - Está tudo bem!
Você não sente o que sente, engula o choro. - Não chore!
Reprima seus sentimentos, expressar emoções é inadequado. - Repita até ficar bom.
O que você faz não está suficientemente bom; você nunca conseguirá atender às minhas expectativas. - Estou decepcionado(a) com você.
Você é responsável pelas minhas emoções; sinta-se culpado(a) pelo que me fez sentir. - Porque eu mandei.
Você não pode pensar; deve obedecer sem questionar; sua opinião não importa; eu sou OK, você não é OK. - Você é igual a… (alguém).
Você não tem direito à sua individualidade; não aceito quem você é; sinta-se inadequado(a). - Você sempre… / Você nunca…
Seus esforços não importam; o que você faz não me interessa. - Eu faço tudo por você.
Sinta-se culpado(a) pelo trabalho que tenho; você é um peso na minha vida. - Mostre sua força; se baterem em você, revide.
Não pense, não sinta, não considere o outro. - Você pode fazer o que quiser com seja lá quem for.
Não quero me incomodar com você; se vire; você não pode contar comigo.
Reconhecer o peso das palavras e atitudes dirigidas a uma criança é reconhecer a profundidade da experiência humana. Cada gesto, cada silêncio e cada frase dita ou omitida participa da construção de alguém que ainda não tem recursos para compreender o mundo, mas já sente tudo intensamente.
Quando os adultos se dispõem a revisitar a própria história, compreender suas feridas e ampliar sua consciência, tornam-se capazes de interromper ciclos e oferecer às crianças algo que talvez não tenham recebido: presença, segurança, esperança, respeito e empatia. E, principalmente, uma linguagem de convivência sem violência, baseada na coconstrução e na cooperação.
Cuidar de uma criança é, ao mesmo tempo, um convite, uma responsabilidade e uma oportunidade de cultivar futuros mais saudáveis, mais livres e mais amorosos.







